quarta-feira, abril 18, 2007

Um pedacinho de terra perdido no mar

"Um pedacinho de terra/perdido no mar
Num pedacinho de terra/belezas sem par".

A opção de desenvolvimento econômico e urbano adotada na Ilha mostra seu vigor no concreto e no asfalto, na privatização de ruas, de avenidas, de praças, de mangues, de praias.
Da velha Desterro se expande um imenso Mercado que sufoca os poucos espaços públicos existentes.
Alguns louvam a inauguração de novos shoppings centers, num ato de fé próprio do ritual dessas catedrais de consumo. Chega-se a se falar até em Revolução: milhares de empregos, centenas de milhões de reais em investimentos, upgrade na qualidade de vida da cidade, atividade não poluidora, um novo padrão, etc.
Mas será que estamos diante de um novo momento histórico? Será que nos sentiremos mais livres? Será que seremos mais felizes?
Muito embora o brilho das luzes possa ofuscar nossa visão quando caminhamos entre as vitrines é impossível não perceber que na Ilha da Magia cada vez mais os espaços de socialização deixam de ser públicos. Menos cidadãos e mais consumidores podem fazer parte dessa cidade invisível que se constrói com concreto, asfalto e luzes ofuscantes.


A exclusividade, garantida pela renda, exige uma cidade exclusiva. Nada de “zé povinho”, de “farofeiros”, dessa gente que insiste em viver e muitas vezes pensa que não é gado e ousa ser cidadão. Para eles o pão e circo de um carnaval "popular" é o suficiente. Cada um no seu lugar, cada um segundo seu status. Separados pelas cercas elétricas, mas iguais em deveres e direitos.
Quais os espaços públicos criados nos últimos anos? Quais as grandes obras de engenharia que tiveram como preocupação central as pessoas? Quais os espaços públicos para a cultura, o lazer, a diversão? Quais as propostas dos partidos políticos para a cidade?
Não é de se assustar, portanto, que a violência tenha tomado as ruas, antes tranqüilas. Não só a violência do tráfico, mas também a do tráfego. Mata-se e morre-se muito mais do que há dez anos atrás. O sangue no asfalto é um retrato da crueldade e da violência que se banalizou no ritmo frenético de um trânsito que caminha para o caos completo, de engarrafamentos e mais engarrafamentos, de dias e dias de fúria em carros e motos.
Tal qual as algas da Lagoa "Açoriada" da Conceição, extende-se por toda ilha um comércio imobiliário laissez faire, laissez passe assistido pela incapacidade e pela corrupção burocrática e política que domina a legislação e a fiscalização de um pretenso plano diretor do município.
Nesse cenário não há como se falar em ruptura.

Tem-se, sim, a renovação de náufragos, traficantes e degredados que em jurerê-mirim se estabeleceram nas décadas iniciais do "descobrimento".
Não se trata de beleza, mas de puro abandono.
Um pedacinho de terra cada vez mais perdido no mar.

Onde iremos parar?

2 comentários:

Geyson Gonçalves disse...

Caro De Bortoli,
Acho que a sua postagem relacionada ao exagero na repercussão da inauguração do shopping em Floripa merece algumas considerações. Em primeiro lugar acredito que iniciativas como esta sejam importantes em uma cidade como Floripa (pela geração de empregos diretos - quase 4 mil - e indiretos, pelas novas salas de cinema - que triplicaram, por novas opções de lazer e mesmo consumo). Depois porque não vejo incompatibilidade entre os conceitos de consumidor e cidadania. Pelo contrário, os termos devem ser complementares. A fetichização do consumo é algo que deve ser criticado e combatido, mas isto não deve implicar na restrição do consumo(especialmente em Floripa). Outra coisa, esse papo de que a Ilha está perdendo a sua "magia" é perigoso porque pode passar a idéia (que eu sei que não é a sua, mas que é bem presente por aqui) de que "bom era naquele tempo...em que nós (florianopolitanos) mandávamos e desmandávamos". Sugere um saudosismo inadequado.
Um abraço,

Adriano De Bortoli disse...

Prezado Geyson,
obrigado pelos comentários. O "fogo amigo", no CIVITATES, é sempre bem vindo.
Procurei chamar atenção nesta postagem, como vc inclusive anotou nos teus comentários, para o que denominei de abandono do espaço público e opção política pelo espaço privado em Florianópolis. Me parece que esse assunto é de fundamental importância quando se discute uma política de urbanização.
Discordo quanto à equiparação entre cidadão e consumidor e apresentarei minhas razões em uma nova postagem (espero que em breve).
O retorno ao passado, concordo contigo, não é a melhor alternativa. Penso numa cidade viva e para todos. Os detelhes dessa proposta virão aos poucos com novas postagens.
abç