sexta-feira, maio 11, 2007

O inquisidor Ratzinger e o Frei Boff (parte final)


João Noro - Você respondia às perguntas em latim ou italiano?
Leonardo Boff - O cardeal [Ratzinger] perguntou: "Você quer em alemão, espanhol ou italiano?" Respondi: "Olha, cardeal, em alemão o senhor é forte porque o senhor é alemão, então vou pedir em espanhol porque o senhor é mais fraco". (risos) Tudo era guerra ali, tudo era jogo limpo. Então falamos em espanhol, embora ele tivesse o texto em alemão, italiano, espanhol e português. Ele disse: "Se você quiser fazer um debate livre, o notário anota tudo, para não ficarmos três dias aqui. Você pode deixar que eu pergunto, então você responde. Ou você pode pegar o teu escrito e segui-lo". "Prefiro seguir o meu escrito." "Não, é muito comprido." Eram sessenta páginas. "Vamos selecionar algumas questões, o resto os cardeais vão julgar o texto como um todo." E logo acrescentou: "A minha função aqui não é julgar você, nem interrogá-lo, é escutar o que você diz e ver se está conforme a fé cristã ou não." "Mas na base de qual critério?" "A minha função é esta, de ter os critérios." Ele é que decide, você está entregue ao arbítrio.
Leo Gilson - Isso me lembra Alice no País das Maravilhas, em que a rainha diz: "Primeiro cortem-lhe a cabeça, depois vamos julgar".
Leonardo Boff - A verdade é que você sente que não tem nenhuma proteção, nem jurídica, nem humana, e que está entregue ao arbítrio. Que na Igreja não funciona nem a lei divina – que eles interpretam como querem –, nem a lei humana, que eles não aceitam. É o arbítrio do príncipe, que é o papa que quer assim, do cardeal que quer assim.
Sérgio Pinto - Quanto tempo durou a sessão?
Leonardo Boff - Os nossos dois cardeais do Brasil quiseram participar de todo jeito, e o cardeal Ratzinger negou: "Absolutamente". Então eles foram ao papa e o papa fez o jogo salomônico: "O tribunal terá duas partes, na primeira só o Ratzinger com o Boff e na segunda só os cardeais". Então me submeti àquele diálogo de uma hora e meia e houve uma pausa para o café. E o curioso é que foi naquela sala enorme, o cafezinho lá no canto e os funcionários correndo pra me pedir autógrafo e o cardeal furioso: "Ele é condenado, ele é condenado!" (risos) Bom, depois da pausa para o café, vieram os cardeais. E aí dom Paulo foi terrível, porque quase não deixava o Ratzinger falar: descobriram que foram colegas de estudo quando eram estudantes de doutorado em Munique, trocaram idéias sobre os professores que morreram ou não. Três dias antes havia saído um documento condenando a Teologia da Libertação, então, no momento apropriado, dom Paulo disse para o cardeal: "Cardeal Ratzinger, lemos o documento e ele é muito ruim. Não o aceitamos porque não vemos os nossos teólogos dizendo e pensando o que o senhor diz da Teologia da Libertação. Inclusive, queremos sugerir que o senhor os chame para elaborar um documento e depois vocês o completam. Se quero construir uma ponte, chamo um engenheiro, e o senhor, para construir a ponte, chamou um gramático, que não entende nada de engenharia. Então, não aceitamos este, queremos um segundo documento". E acrescentou: "Boff, você está aí com o seu irmão, o Gustavo Gutierrez, amanhã vocês já sentam juntos e fazem um esquema". De fato, fizemos o esquema e levamos ao Santo Ofício.
Leo Gilson - Você poderia definir claramente para o leigo o que é a Teologia da Libertação?
Leonardo Boff - E aí então a discussão foi sobre a Teologia da Libertação, não mais sobre mim. A crítica do cardeal se baseava no seguinte: "O teu livro é protestante, quem fala assim são os protestantes, eles não são como os católicos". Eu digo: "Absolutamente, é o lado evangélico do protestantismo, e temos muito o que aprender com Lutero. Então, não aceito que seja o lado protestante, é o lado são da teologia, que percebe o excesso, o abuso de poder da Igreja, a soberba, e pertence à teologia ter uma palavra crítica sobre isso. E há uma tradição profética. A gente, quando é batizado, é batizado para ser profeta, além de sacerdote. Ninguém lembra de ser profeta na Igreja. Os profetas se confrontam com o poder". E se discutiu Teologia da Libertação. A insistência dos nossos dois cardeais era que se fizesse um documento nas igrejas onde se vive uma prática de Teologia da Libertação com pobres e comunidades. Dom Paulo disse ao Ratzinger: "Se o senhor quiser, preparo tudo em São Paulo, o senhor vai conhecer as periferias, vai com os agentes da pastoral e, depois de ver tudo isso, vamos sentar e falar sobre a Teologia da Libertação, porque, se o senhor não vir isso, não vai entender os teólogos". O cardeal respondeu: "Temos obrigações com a Igreja universal, não podemos fazer partido na Igreja local. Somos responsáveis por todas as igrejas, nossa sede de pensamento é aqui". Aí me levantei e disse: "Cardeal, por favor, olhe esta janela, toda de ferro quadriculado. Atrás dessa janela de ferro quadriculado não se faz Teologia da Libertação, porque o mundo já vem traduzido nessa quadratura. Tem de sentir na pele uma experiência de pobreza, porque daí nasce a teologia como o grito dos pobres". A Teologia da Libertação é um grande esforço de uma parte dos cristãos de fazer do Evangelho e da fé cristã um fator de mobilização social.
Carlos Moraes - Começou quando?
Leonardo Boff - Começou com o pessoal do frei Betto, nos anos 60, com a JUC, com a AP, com aqueles cristãos que militavam... Pra mim, a chave da Teologia da Libertação é o seu método, que a maioria esquece nessa discussão, que é o de arrancar, não de uma encíclica, de uma página da Bíblia, de um credo qualquer da tradição, mas partir dos desafios da realidade, quais são as questões que os pobres levantam, que o Brasil suscita hoje. As comunidades de base com seus movimentos sociais por casa, por terra, por saúde, por alfabetização, arrancar disso e, junto com a organização do povo, com a consciência que ele vai desenvolvendo, dizer como os cristãos podem dar um primeiro impulso nisso, o cristianismo como força que dá clareza, que dá motivação pra gente se empenhar pela justiça, pela transformação, porque a gente é herdeiro de alguém que foi prisioneiro político, que morreu na cruz e não velho na cama, que é Jesus. Então, é resgatar essa dimensão, essa densidade histórica, um sentido público, político. A Teologia da Libertação se articula com quem já está dando uma caminhada e tenta pensar a partir da prática. Por exemplo, o pessoal está lutando por terra, eu digo: "Vai ocupar uma terra aí". Então, os cristãos se reúnem e começam primeiro a ler o Êxodo, o povo que está no exílio sem terra, e quer a Terra Prometida. E eles dizem: "Não está em nenhum lugar da Bíblia que Deus deu a terra e a escritura para alguém, a terra é de todos, e Deus, o Senhor disso tudo". Então, quando vão conquistar a terra, o que significa? Que queremos trabalhar a terra para ter saúde, comida, a nossa casa. O sem-terra começa a pensar essa realidade e vê que o que temos é o contrário. A terra está na mão de alguns, impede a vida, impede a justiça, traz doença. Então temos de conquistar isso.
[...]
Sérgio Pinto - Queria voltar ao julgamento do Vaticano e perguntar o seguinte: se você já sabia previamente da opressão daquela cena, já sabia que não teria advogado, direito a voz, a nada, já sabia da condenação, pra que fazer? Pra continuar dentro no sentido de registrar, marcar presença?
Leonardo Boff - Fiz um juízo político, não pessoal. Uma coisa é você defender a sua biografia, romper e seguir seu caminho. Como todo o nosso grupo, o Betto inclusive, era de intelectuais orgânicos das CEBs, e tínhamos naquela época hegemonia na Igreja – quem dava o discurso tinha grande articulação, se movimentava na sociedade, era essa Igreja da base, que era uma coligação de uma série de bispos e cardeais que apoiavam as CEBs, e as CEBs acolhiam esses tipo de Igreja. Então, a minha preocupação era: o fundamental é preservar esse ensaio da Igreja da base e não a minha biografia.
Sérgio Pinto - Quer dizer, era uma militância mesmo...
Leonardo Boff - Militância. Uma coisa bem pensada, em termos até de "até onde eu agüento sem perder a minha dignidade" e trazer um ganho pra essa Igreja da base. Então seria ruim eu romper com o Vaticano, e o Vaticano queria isso, porque seria fácil condenar e excluir, excomungar, e o povo diz: "Olha, assassino, ladrão, tudo bem, mas excomungado não. Porque a pior coisa que existe é ser entregue a Satanás direto, sabe? Então, a excomunhão é uma sombra terrível, um estigma fantástico. E, como senti o apoio explícito da CNBB e da própria ordem franciscana, fui ao diálogo com o Ratzinger levando duas maletas contendo 100.000 subscrições, do mundo inteiro, desde a Sibéria, Coréia, bispos, milhares de cristãos. E, quando comecei, disse: "Cardeal, não estou sozinho aqui, estou com estes 100.000". "Vocês é que manipularam assinaturas!" "Como, manipularam? Um bispo que é lá da cidade de Zagorsky, na Rússia, como é que vai ter contato comigo?" Quer dizer, a Teologia da Libertação não era causa minha, é a causa de uma geração, é um movimento. E saí convencido, devido à influência dos dois cardeais que me acompanharam, que o problema terminaria ali. E qual não foi a minha surpresa quando, no dia 1º de maio, todo paramentado para entrar na missa dos trabalhadores em Petrópolis, toca o telefone, era do Vaticano. Atendo e dizem: "Você se considere imediatamente demitido da cátedra de teologia, deposto da Revista Eclesiástica Brasileira, da coordenação editorial da Vozes, não pode mais falar, viajar, nem dar aula. Esta é a punição". Eu disse: "Então apelo ao direito canônico. Só entro na punição quando tiver os documentos na mão, porque oral não vale". "Então, os documentos seguirão." E desligaram. Aí vieram os documentos.
Chico Vasconcellos - Nesses momentos todos, na sua cabeça não voltam as palavras do velho Mansueto, que dizia que o clero só era bom enforcado?

Leonardo Boff - Vou dizer com muita sinceridade: minha grande decepção não foi a luta ideológica, de teologias, argumentos e contra-argumentos. A minha decepção profunda, que me amadureceu de certa maneira, foi ver que eles mentem. Por exemplo, chego em Roma, o cardeal Ratzinger dá uma entrevista e diz: "Boff não veio para cá convocado. Veio porque solicitou julgamento". Aí telefonei pra ele: "Ou o senhor desmente isso ou pego o avião amanhã e volto para o Brasil, porque discutimos a data, a carta, o senhor mandou a passagem – que eu não viria se vocês não pagassem a passagem –, tudo isso foi feito. Agora, o senhor diz que me apresentei, solicitei um julgamento". Então, ele escreve lá: "Pontualizacione sur por causa est". Não diz "desmentido", diz pontualizacione. Ele diz: "De fato, em dia tal seguiu carta, acertamos dia tal...". E aí, antes de começar o diálogo, andando com ele, eu disse: "Cardeal, quero que o senhor diga pra mim aqui, não na imprensa, se o senhor deu aquela declaração". "Não, a imprensa inventa." Saiu no Osservatore Romano!

Frei Betto - O "diário oficial".

Leonardo Boff - Então foi uma profunda decepção, ver que eles manipulam. Depois, um grande vaticanólogo, o Santini (na ocasião, me articulei com os jornalistas que cobrem o Vaticano e são chamados vaticanólogos e que, pelo menos, são bons teólogos, sabem tudo do Vaticano), me disse: "Olhe, nós temos..." – deu uma cifra altíssima, acho que 300 milhões de liras – "para comprar documentos do Vaticano, documentos secretos, pra gente dar o furo". E eu, numa dessas disputas com aquele cardeal, o Jerome Hamer, tinha dito: "Vocês são corruptos, vocês vendem documentos". "Tem de provar, isso é uma injúria, você tem de provar!" E eu: "Então chamo o Santini aqui, ele tem 300 milhões de liras...". Ele disse: "Infelizmente temos funcionários que só fazem isso...".

Chico Vasconcelos - Você fala que a Igreja mente, que ela é corrupta...

Leonardo Boff - Ela mente, é corrupta, é cruel e sem piedade. Ela pega alguém e vai até o fim. Antes de eu receber aquela condenação no 1¼ de maio, uns quinze dias antes, veio o representante do núncio a Petrópolis, junto com o bispo de Petrópolis, paramentados oficialmente, e me entregaram um livreto publicado pela Poliglota Vaticano Livrino, onde era feito o juízo do meu livro. Me entregaram oficialmente, me deram meia hora pra ler e dar a resposta e foram para a igreja ao lado, rezar. Fiquei lendo. Meia hora depois, eles vieram, eu disse: "Li, concordo porque também rejeito todas essas teorias". "Mas são suas!" "Absolutamente, isso não é meu, eu concordo, tudo bem." O núncio diz: "Graças a Deus, com um teólogo assim podemos trabalhar". Eu digo: "Por quê?" "Se você tivesse feito como o Küng, dizendo não, ligaria daqui mesmo para o Vaticano e você receberia todas as punições canônicas." Aceitei o texto, tudo bem, o texto vai ser publicado e termina ali. Daí a surpresa quando quinze dias depois vêm as punições todas. Quer dizer, não bastou eu me submeter ao processo, acolher a condenação do livro de uma forma oficial – e com a promessa de que nas próximas edições iria fazer rodapés corrigindo, moderando a linguagem –, e eles ainda vêm e aplicam outras punições, quer dizer, é abuso, é excesso de rigor. Me submeteram, ganharam e, ainda por cima, me espezinham. E aí me submeti àquele silêncio, que provocou uma grande crise em Roma porque o dom Ivo, que era presidente da CNBB, recebeu uma infinidade de telegramas do mundo inteiro, de protesto, e o argumento era: "O Vaticano fez aquilo que os militares faziam, isso é um escândalo!"
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Biografia de Joseph Ratzinger (Bento XVI), clique aqui e aqui.
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Um comentário:

Paulo C. Nascimento disse...

Parece-me que o inquisidor Ratzinger, que de bento só tem o nome, vai se afundar por conta própria. O problema é quem ele vai afundar junto (na vida) nesta onda de ultraconservadorismo. Como desde Lutero a igreja católica perdeu o monopólio da salvação cristã, quem quiser continuar a seguir o Evangelho tem um leque de opções por aí afora. É uma pena que uma necessidade legítima do ser humano - a de crer em algum aspecto transcendente - tenha, historicamente, passado pela mediação de tanta gente com os olhos fixos no poder, luxo e ostentação.