domingo, junho 10, 2007

Ariano Suassuna e o Movimento Armorial


"1 - Arautos armoriais
Lá pelos idos do quadrante do ano setenta, do século vinte, mais precisamente em dezoito de outubro, respaldado e desenvolvido em ambiente universitário, um cambrião visionário nordestino (imagine!), o mais que pernambucano nascido em Taperoá, Paraíba - é n(o) fim do mundo?! Valei-me, meu Deus, para sempre seja louvado! - um cabra de esquerda assumido e, em pleno topete da sanguinolenta “ditacuja”1, ajuntado com outros “comparsas”, sacode no Brasil-Mundo uma revolução: realizar uma arte sabida brasileira a partir da utilização da rica cultura popular nordestina (ôxe, é muita pretensão!). Foi um alvoroço só, Virge Maria! A santa não foi a padroeira, mas foi louvada e aclamada em várias facetas dos pecadores... Se não lhes “perdoou”, protege-os de alguma maneira... "

(clique aqui para ver a imagem ampliada e aqui para acessar o conteúdo completo desse repente proseado)

Antes do feriado queria escrever sobre Ariano Suassuna e a sua defesa intrasigente da cultura popular e da identidade brasileira.

A quantidade e a qualidade das informações que encontrei me obrigou a postergar a postagem que somente hoje consegui redigir. Ainda assim vou ter de publicar outras postagens relacionadas com o movimento.

Falar de Ariano Suassuna é falar do Nordeste. Região tão desconhecida do sulista mediano (se é que podemos afirmar sua existência) que não é raro se ouvir por estas bandas manifestações preconceituosas e até racistas sobre "os nortistas" (tamanha é a ignorância geográfica que habita alguns seres humanos que se acham superiores aos demais). Mas deixo esse assunto para um outro momento.

Não sou nordestino de nascença, nem minha família. Mas tive a oportunidade de viver na Paraíba dos sete aos nove anos de idade (início da década de 1980), numa cidade no alto da serra que separa a zona-da-mata do agreste, chamada Areia (no anel do brejo).

O choque cultural foi tão significativo que nem o tempo consegue apagar da mémoria o gosto da tapioca de queijo coalho, do milho assado, da carne-de-sol com macaxeira, do jambo, da rapadura e da caninha dos engenhos seculares; a quadrilha, a fogueira, o mingau, o cural, a Festa Junina; o xote, o xaxado, o forró e o frevo; os anjinhos em contidianas procissões de caixões brancos pequeninos, vítimas da miséria e da concentração de renda; as orações das freiras do Colégio Santa Rita: "Senhor, dai pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão!".
Por essas razões me considero nordestino também.
Na obra de Ariano Suassuna consigo reencontrar essa infância, o nordeste, a cultura popular, os contrastes da vida do sertanejo, que antes de tudo é um forte (Euclides da Cunha - Os Sertões).
Parte dos esforços feitos por esse grande dramaturgo se traduziram em um movimento cultural chamado Armorial. Felizmente podemos acessar parte da produção do movimento pela internet. O site é primoroso. Na página de abertura há duas opções. Uma remete aos primórdios do movimento e a outra apresenta os 35 anos de produção cultural.
A navegação é facílima e instigante. Lá se pode ler trechos de cordeis, acessar pinturas, desenhos, animações, gravuras, etc.
É um site arretado!
Reproduzo mais um trecho do repente para que vocês saibam mais sobre o Movimento Armorial:
"2 - Arautos harmoniais
Mais ou menos na metade do mês de outubro de dois mil e cinco, mas já podendo precisar ao certo, no período de dezessete a vinte e oito de outubro, a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), por meio da Agência Experimental em Relações Públicas (Agerp), apresentou o projeto multidisciplinar: O Romance de um Romanceiro Arengueiro ou A Eterna Peleja de um Cabra Sabido em Busca de uma Identidade Nacional ou Harmonia Armorial, 35 Anos em Movimento.
(Em 18 de outubro de 2004 foi realizado o evento Armorial – movimento preliminar dos 35 anos, onde foi feito o lançamento do vídeo A Música Armorial: do experimental à fase arraial, de Ana Paula Campos, egressa de Relações Públicas. O evento contou com a participação de Ariano Suassuna.
O feito foi uma homenagem ao Jubileu de Coral do Movimento. A Unicap utilizou-se do seu ensino, pesquisa e extensão e, mais uma vez, escancarou suas portas para os saberes acadêmicos com interferências qualitativas de ajudas (mútuas) socioculturais ...
“A Unicap não está somente situada no Nordeste: está voltada para ele: - (...) - para sua riqueza, cultura e valores éticos de sua população.[Sua] concepção de ensino, pesquisa e extensão parte da realidade, variada e complexa; busca uma fundamentação teórica e instrumentos de análise para entendê-la; processos e técnicas para intervir na realidade a fim de transformá-la. [...Além de] formar o espírito científico dos alunos, - não só fornecer-lhes informações, mas incitá-los a pensar por si mesmos, criticar as opiniões recebidas e a buscar o conhecimento.
(...) Ao mesmo tempo, a Universidade incentiva a criatividade de seus alunos, a abertura do espírito em relação a outros saberes pela interdisciplinaridade, e a abertura aos problemas da região e da cidadania, através de uma prática ética e consciência social”14. Plantar ações, utilizando valores que retratam a cultura do povo, de um povo, é produzir e colher re(conhecimento) social, é ter responsabilidade social.
A partir dos seus ensinamentos e preceitos, foi realizada uma leitura, retrospectiva... dos principais motes do Movimento - releitura e desenvolvimento de ações à luz do conhecimento e da realidade intelectual produzida na universidade.
O mote foi contado a partir da realidade dos cursos de dois Centros, das unidades comunitário-artístico-culturais, egressos da Unicap e personalidades convidadas.
As ações multidisciplinares realizadas no Harmonia foram idéias, sugestões adequadas e desenvolvidas por alunos ou grupos, egressos, professores e convidados; o produto final, portanto, é de autoria coletiva.
Tudo o que é refinado, lapidado, clássico, erudito, originou-se do cru, do rude... do povo e de sua cultura. A comunidade unicapiana (discentes, docentes, pesquisadores, administradores, religiosos, prestadores de serviços) saboreou dessa arte e convidou outros “meus senhores todos [... e minhas] senhoras também”15 para provar do tempero e não serem engolidores de qualquer coisa!
Este parco repente proseado foi um desacato e uma homenagem ao des(entendimento) de muitos brasileiros que não querem enxergar (mesmo tendo o mínimo de conhecimento) a pelo menos um palmo dos seus “ói” e àqueles que valorizam e velam os valores consuetudinários da cultura nordestina, respectivamente. Os afazeres não foram regionalistas, mas os que irão arvorar-se na saga do h(armorial) irão bebê, cumê, degustar de (uma) cultura regional-brasileira-universal, legítima, original.
" (grifo acrescentado)

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