terça-feira, setembro 25, 2007

Não sou candidato!


Ciro Gomes, o Deputado Federal porporcionalmente mais votado do país (16% do eleitorado do Ceará), não é candidato à sucessão do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o que podemos ler de suas declarações na revista Carta Capital desta semana.
Entretanto, como a Política é uma Arte (arte do engano, diria Maquiavel e seu seguidor español Saavedra Fajardo, tendo a raposa como símbolo da astúcia) nem sempre o que se vê estampado entre os limites da moldura revela as reais pretensões do seu criador.
Três orações dão o tom da plataforma política desta não candidatura:
1. "Fernando Henrique foi o presidente que mais mal fez ao Brasil. O País quebrou três vezes"
2. "O PT, antes de chegar ao poder, exacerbou no moralismo político"
3. "A imprensa brasileira é um desastre. A mídia faz a novelização escandalosa da política"
Estamos a quase três anos da próxima eleição presidencial e todos os políticos sabem que ainda é muito cedo para movimentos definitivos no tabuleiro elitoral brasileiro (tudo bem, nem todos).
Ciro, certamente, não faz compania ao grupo da consciência política ingênua. Já foi prefeito de Fortaleaza, Governador do Ceará, duas vezes Ministro e duas vezes candidato a Presidente da República, sem ter atravessado a marca atual da meia idade (conta com 49 anos).
O movimento também não está em descompasso com o jogo político atual. Estamos próximos, muito próximos por sinal, do prazo final para a mudança partidária que irá definir o quadro de candidatos a eleição de prefeitos e vereadores no próximo ano (a legislação exige um ano de fidelidade partidária para a propositura de candidatura, em regra). E a eleição municipal é a base para um sucesso eleitoral na sucessão presidencial (veja-se o exemplo do PT).
A seu favor sopram ventos fortes de carisma, que são importantes para consolidar a liderança política exigida pelo cargo. Diferentemente de Lula, que no paz e amor selou sua posição de líder da maciça maioria da população (duas vezes eleito com 61% dos votos válidos), Ciro investe num perfil mais técnico ao demonstrar sua grande capacidade de debater diversos assuntos, com munição farta de dados concretos e estatísticas. Suas críticas são claras, objetivas e sua retórica adorna a chatice de perfilhar números incompreensíveis para boa parte da população (oportunidade ímpar de conduzir o debate político).
Pode-se extrair da entrevista o perfil proposto pelo não candidato em nítido teste de popularidade:
a) seus inimigos: FHC e o discreto charme da privatização;
b) seus amigos: Tasso Jereissati;
c) seu opositor preferido: Aécio Neves;
d) seu provável adversário: José Serra;
e) seu partido desejado: PT;
f) seu partido indesejado: PMDB;
g) sua bandeira política preferida: a imprensa contra Ciro Gomes;
h) sua bandeira política necessária: continuismo não continuista;
i) sua ideologia: pragmatismo político apartidário de centro-esquerda.
Se as eleições fossem hoje, Ciro só perderia para José Serra. Agora isso, é uma outra história...

Um comentário:

Geyson Gonçalves disse...

De Bortoli,
A pretensa candidatura de Ciro Gomes é resultado de um governo que vai chegar ao seu final sem criar um quadro político capaz de suceder o atual presidente. O pior é saber que o próprio Lula parece não ter o menor interesse em alavancar um nome público dentro do PT. Pretende seguir os passos de seu antecesor (FHC) e não se esforçar muito para "fazer" o sucessor. É lamentável, mas é o que parece estar acontecendo.