sexta-feira, outubro 19, 2007

"No BOPE não há policial corrupto"?


A frase que está no título é do Capitão Nascimento [a interrogação é minha], personagem que alcança dimensão nacional fora das telenovelas da "plim-plim".
A polêmica sobre o filme pirateado por cerca de 12 milhões e que, estima-se, será visto por 20 milhões no Brasil (clique aqui) aflora os mais diversos preconceitos de uma sociedade profundamente autoritária.
Por trás do livro (Elite da tropa) e do filme (Tropa de Elite) está o ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, autor do artigo que reproduzo aqui.

Aplausos à violência?


Artigo publicado dia 7 de outubro de 2007 no Caderno Aliás do jornal Estado de S.Paulo.

Como têm reagido as platéias ao filme Tropa de Elite, que exibe a coreografia e os bastidores da brutalidade policial? Ainda é cedo para saber. Mas há indícios reveladores. É preciso avançar com cuidado nesse terreno, ou correremos o risco de fazer com a sociedade o que alguns críticos fizeram com o filme: simplificar todo um universo complexíssimo com um rótulo fácil. Há os que riem diante da tortura. Mas será que rir expressa adesão ou algum profundo desconforto? Alguns gritam “caveira” e aplaudem o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais da PMRJ) nas ruas. Sim, é verdade, mas, nesse caso, não nos precipitemos em generalizações. Vejamos o que nos diz uma pesquisa recente, publicada por Alberto Carlos de Almeida, em seu livro, A Cabeça do Brasileiro (editora Record): “Quase 40% da população brasileira acham certo que alguém condenado por estupro seja vítima do mesmo crime na cadeia”. “Pouco mais de um terço da população considera correto que a polícia bata nos presos para obter confissões de supostos crimes”. Práticas como “... a polícia matar assaltantes e ladrões e a população linchar suspeitos de crimes, contam com a aprovação de, respectivamente, 30% e 28% da população”.

Portanto, não é de se espantar que haja quem aplauda a tortura e as execuções. Esses não foram convencidos pelo filme de que torturar é bom, executar é bacana. Eles se identificaram com personagens que encarnam seus valores e expressam suas emoções. Não se identificaram com “o filme”, mas encontraram no filme pontos de fixação e ali ancoraram seu ressentimento e suas crenças. Dificilmente um filme mudaria a cabeça de um terço da população que já se inclina para a aprovação de posturas arbitrárias. Entretanto, mesmo para esses, alguma tensão talvez tenha sido provocada. O narrador, como veremos a seguir, é um personagem imerso no mundo que o filme retrata. O que ele diz coincide com a sensibilidade e as idéias dessa parte da população, mas as dimensões não verbais, simbólicas e inconscientes do filme desestabilizam essa sensibilidade e essas idéias, de um modo que parece ter precipitado um curioso efeito de júbilo e insatisfação. Por isso, a reação predominante desses que se identificam com a ideologia-caveira parece estar sendo a de ver várias vezes o filme. Como se algo estivesse fora do lugar e precisasse ser identificado, processado e reposto em seu lugar original. Reagem como se estivessem diante de uma assimetria, que exigisse sucessivos movimentos de reacomodação. Tudo parece estar em seu lugar e soa certo, mas algo escapa e cobra o esforço de reorganização. O filme não sacia os que pensam encontrar ali o alimento para suas convicções autoritárias. A equação não se resolve, a conta não fecha.

Seja como for, há um fenômeno ainda por compreender, que a pirataria tornou possível, mas não explica: o filme mobilizou o imaginário coletivo, sem limites de classe, cor, sexo, idade ou gênero. Minha hipótese: nele, o que se ostenta é forte e o que se oculta mais forte ainda. O que se exibe é conhecido, mas nunca foi exposto por esse ângulo – e o contraste entre familiaridade e estranhamento inquieta e seduz. O que se oculta, ou melhor, trafega sob a epiderme da narrativa, é o desencaixe entre, por um lado, a visão de mundo autoritária e aparentemente auto-suficiente do policial-narrador e, por outro, seu sofrimento, sua hesitação não verbalizada, sua incapacidade de tornar humana a vida que vive. Quem viu o filme e saboreou a violência, aderindo à crueldade, pode ter sido inoculado, sem o saber, com o veneno de um desconforto perturbador, que talvez possa desestabilizar certezas e abrir novas claves de sensibilidade e valor. Para que se entenda esse ponto crucial, sugiro a seguinte interpretação do filme.

Um capitão do Bope, instado a comandar sua tropa em uma série de operações inconseqüentes, pratica toda sorte de atrocidades para cumpri-las, torturando e executando suspeitos nas favelas cariocas. Conduzido ao paroxismo da angústia, ante o absurdo de sua tarefa, o capitão decide procurar um substituto para afastar-se do Bope. A ansiedade se intensifica: pânico, suor e tremores, desequilíbrio em casa, hesitação nas incursões. Capitão Nascimento vê as duas pontas do processo aproximarem-se: seus pares convencionais, corrompidos, confundem-se mais e mais com os criminosos, vendendo armas e negociando com o crime. Por isso, seu batalhão os mata. Mas as práticas que ele agencia o tornam fonte da violência e instrumento de sua reprodução: seus atos confundem-se, crescentemente, com a selvageria dos traficantes.

Onde estão as instituições, as Leis, o Estado Democrático de Direito, os vestígios da civilização? O que distingue bandidos e polícia, se a violência arbitrária é a linguagem comum que os identifica? Convertem-se em extensões, um do outro. A máquina que reproduz a brutalidade está em marcha. Já não se conhecem princípio (nem princípios) e fim (nem finalidades). Nesse continuum, capitão Nascimento sufoca, tenta esticar a cabeça para respirar, sente a carótida pulsar, aperta as têmporas com as mãos, se entope de remédios tarja-preta.

Para sair do batalhão, não basta que Nascimento procure um substituto. Ele tem de criá-lo e o faz no ritual de passagem para ingresso no Bope. Convertidos a uma nova identidade, corpo e espírito do neófito retornam à sociedade sob “nova direção”. O escolhido e adestrado para substituir Nascimento é um rapaz pobre e negro, de nobres intenções, policial que se horroriza com a corrupção dos convencionais, e que experimentará ao longo de toda a narrativa uma dualidade exasperante: à noite incursiona em favelas; pela manhã, junta-se a seus colegas da elite, no curso de Direito. À noite, caça quem vende drogas aos colegas da faculdade, com os quais é obrigado a conviver durante o dia. A dupla fidelidade arruinará seus propósitos elevados, tais como ele os entendia, originalmente. A ponte entre os dois mundos se romperá. Entretanto, ao rebelar-se contra os colegas “burgueses” e vestir a farda negra, de corpo e alma, André Matias continuará reproduzindo a lógica da “guerra”, em cujo âmbito esses mesmos colegas esbanjam prerrogativas. Assim como Nascimento, André encontra-se com seu contrário.

As contradições entrelaçadas são integradas por uma fricção sintética e superior, que abrange os atritos entre as linhas de força até aqui identificadas. Refiro-me ao choque entre a linguagem visual do filme e as convicções autoritárias de Nascimento, narrador que não enxerga um palmo além da lógica a que o submetem as regras do jogo jurídicas e políticas em vigor. Os enquadramentos e as seqüências ecoam o descentramento, as hesitações, a ansiedade, a respiração tensa do narrador. Nas palavras de Nascimento, proclama-se a visão de mundo que corresponde à limitada consciência de um agente social que reproduz dinâmicas históricas cuja lógica ignora. Eis um exemplo: ele diz que só há três alternativas para um policial, no Rio de Janeiro: corromper-se, resignar-se ou ir à guerra. Claro que essas três opções são as únicas apenas se a regra do jogo da criminalização das drogas existe, se a polícia é o que se sabe, etc...Fossem outras as regras do jogo, as opções que se ofereceriam à consciência do policial seriam diferentes. Portanto, Nascimento proclama uma visão de mundo que não passa de auto-engano, mas que se quer férrea, inabalável. Simultaneamente, sua linguagem corporal e as imagens dizem o contrário. As convicções de Nascimento desmancham no ar. A performance de Wagner Moura e a direção de José Padilha são impressionantes porque focalizam justamente esse ponto delicado de (des)equilíbrio: contra as palavras e a ideologia que elas professam, a angústia e a hesitação no corpo, e a sinuosidade vacilante das imagens. Nascimento não é morto para que a justiça prevaleça. Nem vai ao psicanalista para explicar ao espectador seu drama. Essas seriam soluções triviais e redundantes, incompatíveis com a riqueza simbólica. Sua percepção autoritária e seu comportamento inaceitável são desconstruídos, em sua matriz, pelo sistema – filme – essa constelação de significados que a obra põe em movimento.



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