quarta-feira, novembro 07, 2007

Noventona

A revolução russa de 1917 completa hoje 90 anos. Por suas inúmeras consequências para a história contemporânea é uma data que merece destaque, para além de divergências ideológicas. Mais que isso, apesar das conhecidas barbaridades cometidas posteriormente que dela resultaram de algum modo, acho que é uma data a ser celebrada - e não apenas lembrada. Primeiro pelas consequências "geopolíticas" positivas que resultaram da fundação da primeira república socialista: a vitória das forças aliadas na segunda guerra e o estímulo à revisão dos aspectos mais sombrios das economias de mercado ultra-liberais são exemplos sempre mencionados. Em segundo lugar, pela verdadeira fonte de inspiração moral igualitária e impulso prático que forneceu aos mais variados setores da esquerda política.

Sobre o assunto eu deixo aqui duas sugestões de leitura. A primeira trata do resultado institucional mais imediato da revolução de outubro, a fundação da União Soviética: "O Século Soviético: da revolução de 1917 ao colapso da URSS", de Lewin Moshe. Veja o comentário de Eric Hobsbawn sobre a obra: "Provavelmente nenhum outro historiador ocidental da URSS reúne, como Moshe Lewin, a experiência pessoal de convívio com os russos, desde os tempos de Stalin - como um jovem soldado em tempos de guerra - até a era pós-comunista, com tão profunda familiaridade com os arquivos e a bibliografia da era soviética. Suas reflexões em O Século Soviético constituem uma importante contribuição para libertar a história soviética da herança ideológica do século passado e devem ser leitura essencial para todos os que desejam entendê-la".

A segunda obra é "If You're an Egalitarian, How Come You're So Rich?" ("Se você é um igualitário então como é tão rico?"), de Gerald Allen Cohen, um dos mais importantes filósofos políticos da atualidade. Em 1979 G. Cohen revigorou a análise marxista ao publicar "Karl Marx's Theory of History: a defense" (2a ed. em 2000), uma obra fundamental para a formação daquilo que a partir dos anos 80 tornou-se conhecido como "marxismo analítico". Menos que uma nova "escola" teórica, tratava-se de um movimento de autores dispersamente dedicados à interpretação das principais teses de marxistas sob o crivo rigoroso dos princípios da filosofia analítica de matriz anglo-saxônica, da microeconomia e da "teoria do jogos". Características interessantes desta perspectiva: a rejeição da idéia de que o marxismo possui um "método dialético" próprio, distinto dos "métodos" utilizados pelas "ciências burguesas"; a firme disposição para rejeitar todas as teses marxistas imcapazes de comprovação mediante os instrumentos analíticos ou mesmo de uma formulação rigorosa; e o reconhecimento de que a teoria marxista equivocadamente ignorou a importância do debate sobre princípios filosóficos de justiça política e moralidade, tal como desenvolvidos por autores como John Rawls e Ronald Dworkin, entre outros . Eu faço a indicação do livro especialmente por este último motivo. Hoje, uma das principais áreas de interesse de Cohen é a reformulação dos princípios políticos socialistas a partir da idéia elementar de igualdade, empreitada que desenvolve sob o mote de "resgatar a justiça" do monopólio do pensamento liberal-igualitário. Em tempo: para Cohen o referido "monopólio" da compreensão normativa das teorias da justiça deve-se mais ao tradicional desprezo que os teóricos socialistas dedicaram a tal discussão do que a alguma bem sucedida estratégia liberal.

A imagem acima: "Bolchevique" (1920), de Boris Kustodiev.

3 comentários:

Geyson Gonçalves disse...

Boa lembrança Ladeira,
Diante do "massacre ideológico" que identifica a Revolução Russa e as experiências socialistas com a mais absoluta falta de democracia, é realmente importante que esta data seja lembrada e, como você mesmo escreveu (ou pelo menos acho que escreveu), comemorada. Já que não será pela Revista(???) Veja, que seja aqui no Blog.
Um abraço.

Gustavo Pedrollo disse...

Por essas e outras que tu não podes sumir do blog...

Mto boa lembrança, e umas ótimas dicas de leitura.

Analisar a Revolução de 1917 sem preconceitos ainda é incrivelmente difícil. Algumas vezes é subestimada, noutras é idolatrada.

Acho que, na verdade, ultimamente está mesmo é esquecida.

Taí, vou ler esse livro do Lewin.

Cláudio Ladeira disse...

É isso aí cearense,é pra ser comemorada mesmo. Aliás, deveria ser comemorada não apenas por aqueles que de algum modo manifestam simpatia com tradição política socialista. Ou alguém duvida da importância do desempenho militar soviético para a existência do "estado-de-bem-estar-way-of-life"? Os liberal-democratas em geral tem motivos de sobra para alguma gratidão.
O texto do Lewin, embora bastante crítico à experiência soviética, rejeita expressamente a cantilinária anti-comunista, que "consiste em ´stalinizar´ todo o fenômeno soviético, como se tivesse sido um Gulag gigante do começo ao fim" (p. 404). Ele mostra que esse padrão "Revista Veja" de análise histórica não é só o resultado de falta de objetividade, é má intenção mesmo: encobrir com um palavrório sobre a democracia e os direitos humanos as arbitrariedades cometidas pelo "mundo livre" em nome do anti-comunismo. Inclua aí na conta o patrocínio norte-americano ao golpe de 64, sob uma presidência do partido Democrata.
Gustavo, você vai gostar dos dois livros, bote fé. Mas diga uma coisa: acha que ficou muito na cara que o Civitates está recebendo jabá da ed. Record?