sexta-feira, maio 09, 2008

Agripino e a tortura


Reproduzo a postagem do jornalista Paulo Moreira Leite (clique aqui para acessar o blog) sobre os posicionamentos políticos do Senador Agripino Maia.


08/05/2008 12:45

Agripino e a tortura

Ao longo de sua história os anais do Congresso brasileiro dificilmente terão registrado uma declaração tão repulsiva como as afirmações do senador Agripino Maia sobre a ministra Dilma Roussef.
Ao acusar a ministra de mentir quando estava presa sob o regime militar, o senador deu a tortura a legitimidade de um teste de caráter.
Transformou o porão que massacrava opositores num local onde vigoravam princípios como o respeito a verdade.
No mundo inteiro os torturadores gostam de culpar as vítimas pelos crimes que eles cometem. Seu comportamento mais frequente é inverter os papéis para esconder a própria responsabilidade.
Eles sustentam que a pessoa que responde a um interrogatório e dá informações após receber choques elétricos, porrada e ir para o pau de arara não é vítima de um crime, mas um cidadão com falha de caráter, um delator e um fraco.
O ato de torturar, por este raciocínio, não seria uma violência nem uma covardia - mas uma forma de se chegar à verdade.
Esse raciocínio tenta dar a impressão de há uma ética no porão, onde no fundo todos seriam iguais – o problema é que algumas vítimas são “corajosas” e outras, “covardes”. Algumas teriam mais “saúde” para enfrentar os castigos e as outras seriam “pouco resistentes.” Alguns falam a "verdade" e outros "mentem."
A idéia, sempre, é transferir a responsabilidade para a vítima e apagar o papel do carrasco.
Em 1970, o pai de um estudante preso pela OBAN em São Paulo, foi pedir satisfações a um capitão que comandava o destacamento. Ouviu o seguinte:
“Seu filho está apenas levando socos e pontapés; mas isso não tem importância, porque também os levaria na faculdade. Está também levando choques elétricos, mas não se impressione porque os efeitos são meramente psicológicos.”
A pressa de amigos e aliados para tirar o senador de cena envolve um esforço teatral de sobreviência. Mas era tarde.
Com o pronunciamento, caiu a máscara de uma velha direita brasileira, que faz juras de amor à democracia por pura conveniência.
Acho que o Senado Federal deveria seguir o exemplo de um juiz que tentou reeducar dois delinquentes da internet obrigando-os a ler Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para saber como a vida é dura.
Agripino Maia deveria ser obrigado a ler as 312 páginas do Brasil Nunca Mais, de onde tirei a citação acima (que está na página 229). Talvez assim ele pudesse entender porque a Constituição brasileira define a tortura como crime hediondo – e tivesse dignidade na próxima vez em que fosse abrir a boca no Senado Federal.
E você, tem alguma sugestão para reeducar o senador?

enviada por Paulo Moreira Leite

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