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quarta-feira, março 17, 2010

La política demasiado a pechos

No início de abril cumprirei um ano em terras espanholas. Cumpriremos, Camila e eu, porque... eu não ando só/ só ando em boa companhia...
São tantas as impressões que não sei ao certo por onde começar...
Mas tem uma que na literatura encontramos a expressão articulada de percepções surgidas do contato com as praças, as ruas, os jornais, as universidades, os canais de tv, etc...
Segue aqui um trecho de um conto de Francisco Ayala, escritor granaíno, morto ano passado aos 103 anos de idade. Viveu no Rio de Janeiro dos anos 40. Conheceu de perto os horrores da guerra civil espanhola e do franquismo.




"La vida por la opinión


Esto no son cuentos. Ocurre que, por su carácter vehemente, o quizá por falta de experiencia cívica, los españoles han propendido siempre a tomar la política demasiado a pechos. La última guerra civil los dejó deshechos, orgullosísimos, y con la incómoda sensación de haber sufrido una burla sangrienta. Apenas les consolaba ahora, rencorosamente, el ver a sus burladores enzarzados a su vez en el mismo juego siniestro -pues había comenzado en seguida la que se llamaría luego Segunda Guerra Mundial...
Yo soy uno de aquellos españoles. Habiendo leído a Maquiavelo por curiosidad profesional y aun por el puro gusto, no ignoraba que la política tiene sus reglas; que es una especie de ajedrez, y nada se adelanta con volcar el tablero. Pero si envidiaba -y cada día envidio más- la prudente astucia de los italianos, que saben vivir, también me daba cuenta de que, por nuestra parte, nos complacemos nosotros en no tener remedio, y estamos siempre abocados a abrir de nuevo el tajo y caer al hoyo. Ningún escarmiento nos basta, ni jamás aprendemos a distinguir la política de la moral. Recién derrotados, ¿no estábamos cifrando acaso todas nuestras esperanzas en el triunfo de aquellas mismas potencias que, atados de pies y manos, acababan de entregarnos a la voracidad fascista? Sí; como tantos otros exiliados, esperaba yo desde la otra orilla del océano lo mismo que esperaban en la Península millones de españoles: la caída de la sucursal que el eje Berlín-Roma tenía instalada en Madrid; lo mismo que, con temerosa expectativa, aguardaban también los titulares, partidarios y beneficiarios de ese régimen.
Unos y otros, los españoles de ambos bandos estábamos engañados en nuestros cálculos. Podían ser éstos correctos, e irreprochables los razonamientos en que se fundaban; pero ¿a qué confundir lógica e historia, que son dos asignaturas tan distintas? Después de aniquilar a Mussolini y Hitler, las democracias tendieron amorosa mano a su tierno retoño, que se tambaleaba; no fuera, ¡por Dios!, a caerse. En vista de lo cual, amigos,lasciate ogni esperanza.
Para entonces -año de 1945- vivía yo en la ciudad de Río de Janeiro," ...


Quem quiser ler o conto completo clique aqui.

quarta-feira, julho 16, 2008

O burro, o boi, o mercador e sua esposa











(continuação do livro das mil e uma noites)
"Saiba que certo mercador próspero tinha muito dinheiro, homens, animais de carga, e camelos; também tinha esposa e filhos pequenos e crescidos. Vivia no interior, inteiramente dedicado à lavoura, e conhecia a linguagem dos quadrúpedes e demais animais; no entanto, se ele revelasse tal segredo a alguém, morreria. Ele sabia, portanto, a linguagem de todas as espécies de animais, mas não dizia nada a ninguém por medo de morrer. Em sua fazenda viviam um boi e um burro, e ambos ficavam próximos um do outro, amarrados ao pesebre. Certo dia, o mercador sentou-se, com sua esposa ao lado e os filhos pequenos brincando diante de si, e olhou para o boi e o burro. Ouviu o boi dizendo ao burro: "Muitas congratulações para você, mano esperto, pelo conforto e pelos serviços de escovação e limpeza que recebe. Você tem quem cuide de si; só o alimentam com cevada escolhida e água fresca e limpa. Quanto a mim, pegam-me no meio da noite para lavrar e colocam no meu cangote uns utensílios chamados canga e arado; trabalho o dia inteiro, escavando a terra e sendo obrigado a tarefas insuportáveis; sofro com as surras do lavrador e com o o relho; meus flancos se lanham e meu cangote se esfola; fazem-me trabalhar de noite a noite, e depois me levam ao paiol, onde me dão fava suja de barro e palha com talo; durmo no meio da merda e do mijo a noite inteira. Agora, você não, você está sempre sendo escovado, lavado e limpado; seu pesebre é limpo e cheio de boa palha; está sempre descansado, e só raramente, quando ocorre ao nosso dono, o mercador, alguma necessidade, ele monta em você, mas retorna rapidamente. Você está descansado, e eu, cansado; você está dormindo, e eu, acordado". Quando o boi encerrou o discurso, o burro voltou-se para ele e disse: "Seu simplório, não mente quem te trata como bobo, pois você, bobalhão, não tem nem artimanha nem esperteza nem maldade. Fica aí exibindo a sua gordura, se esforçando e se matando pelo conforto dos outros? Você por acaso não ouviu o provérbio que diz ´quem perde sucesso, seu caminho entra em recesso´? Você sai logo de manhãzinha para o campo, o maior sofrimento, lavrando e paanhando, e depois o lavrador traz você e amarra no pesebre, enquanto você fica aí se batendo, dando chifrada, dando coice, dando mugido, mal agüentando esperar até que joguem as favas na sua frente para você comer? Não, nada disso, você tem mais é que fazer o seguinte: quando lhe troxerem a fava, não coma nada; dê só uma cheiradinha nela, se afaste e nem prove; limite-se a comer palha e feno. Se agir assim, isso será melhor e mais adequado para você, e aí então vai ver o conforto que desfrutará´.

Disse o autor: ao ouvir as palavras do burro, o boi percebeu que este lhe dava excelentes conselhos; agradeceu-lhe em sua língua, fez-lhe os melhores votos, desejou-lhe as melhores recompensas, certifiou-se de que seus conselhos erambons e lhe disse: "Que você fique a salvo de todo dano, mano esperto!´.

[Prosseguiu o vizir:] Isso tudo ocorreu, minha filha, diante dos olhos do mercador, que sabia o que eles estavam dizendo. Quando foi no dia seguinte, olavarador foi até a casa do mercador, recolheu o boi, colocou-lhe o arado e o pôs a trabalhar. O boi, contudo, realizou mal o seu trabalho de aragem; o lavrador espancou-o e o boi, fingindo - pois ele aceitara as recomendações do burro -, atirou-se ao chão; o lavrador tornou a bater-lhe, mas o boi pôs-se a levantar e cair seguidamente até que anoiteceu. Então o lavrador conduziu-o até o paiol, amarrando-o ao pesebre. O boi não mugiu nem deu coices, e se afastou do pesebre. Intrigado com aquela história, o lavrador trouxe-lhe favas e forragem, mas o boi, após cheirá-las, deu uns passos para trás e foi deitar-se longe dali, pondo-se a mordiscar um pouquinho de palha e feno espalhados ali pelo cháo até que amanheceu, quando então o lavrador voltou e verificou que o pesebre continuava cheio de feno e palha, cujas quantias não haviam diminuído nem se modificado, e que o boi estava deitado, a barriga estufada, a respiração presa e as pernas erguidas; ficou triste por ele e pensou: 'Por Deus que ele estava enfraquecido, e é por isso que não conseguia trabalhar´. Em seguida, dirigiu-se ao mercador e disse: 'Chefe, esta noite o boi não comeu a ração, nem sequer provou nada'. Sabedor do caso, o mercador disse ao lavrador: 'Vá até aqule burro malandro e bote-lhe o arado ao pescoço; faça-o trabalhar bastante a fim de que ele compensa a ausência do boi'. Então o lavrador foi até o burro, pendurou-lhe o arado ao pescoço, foi até o campo e chicoteou e forçou o burro a fim de que ele cumprisse as tarefas do boi. Tantas foram as chicotadas que seus flancos se dilaceraram e seu pescoço se esfolou. Ao anoitecer, conduciu-o ao paiol. De orelhas murchas, o burro estava que mal conseguia arrastar as patas. Quanto ao boi, naquele dia sua história fora outra: passara o tempo todo dormindo, sossegado e ruminando; comera toda a sua ração, matara a sede, esperara, descansara e durante o dia inteiro rogara pelo burro e lhe louvara o bom parecer. Quando anoiteceu e o burro chegou, o boi foi recepcioná-lo pressuroso dizendo: 'Que você tenha uma excelente noite, mano esperto! Por Deus que você me fez um favor que, de tão grando, não tenho como descrever. Que você continue correto e cortês, e que Deus o recompense por mim, mano esperto!'. O burro estava tão irritado com o boi que não lhe deu resposta, e pensou: 'Isso tudo me aconteceu por causa dos meus péssimos cálculos. 'Eu estava tranqüilo e sossegado mas a minha curiosidade me deixou ferrado'. Agora, se eu não arranjar algum estratagema para fazer o boi retornar ao que fazia antes, estarei destruído'. E dirigiu-se ao seu pesebre, enquanto o boi ruminava e lhe fazia bons votos.

[Prosseguiu o vizir:] 'Também você, minha filha, poderá ser destruída em virtude dos seus péssimos cálculos; por isso, acalme-se, fique quieta e não exponha sua vida à desruição. Estou sendo seu bom conselheiro, e ajo movido por meu afeto por você'. Ela disse: 'Papai, é absolutamente imperioso que eu vá até esse sultão e que você me dê em casamento a ele'. Disse o vizir: 'Não faça isso'. Ela respondeu: 'É absolutamente imperioso fazê-lo'. O vizir disse: 'Caso não se aquiete, vou fazer com você o mesmo que o mercador proprietário da fazenda fez com a esposa'. Ela perguntou: 'E o que ele fez com a esposa, papai?. O vizi respondeu:"

domingo, julho 06, 2008

O gênio e a jovem sequestrada


(Continuação do Livro das mil e uma noites)


"Disse o copista: ato contínuo, ambos desceram pela porta secreta do palácio e, saindo por outro caminho, puseram-se em viagem. E viajando continuaram até o anoitecer, quando então dormiram abraçados a suas aflições e dores. Mal amanheceu retomaram a caminhada, logo chegando a um prado repleto de plantas e árvores na orla do mar salgado. Ali começaram a discutir sobre suas respectivas desditas e o que lhes sucedera. Enquanto estavam nisso, eis que um grito, um brado violentíssimo, saiu do meio do mar. Tremendo de medo, eles supuseram que os céus se fechavam sobre a terra. Então o mar se fendeu, dele saindo uma coluna negra que não parava de crescer até que alcançou o topo do céu. Tamanho foi o medo dos dois irmãos que eles fugiram e subiram numa árvore gigante na qual se instalaram, ocultando-se entre as suas folhagens. Dali, espicharam o olhar para a coluna negra que, flanando pela agua, fazia o mar fender-se e avançava em direção àquele prado verdejante. Assim que botou os pés na terra, ambos puderam vê-lo bem: tratava-se de um ifrit [gênio] preto, que carregava à cabeça um grande baú de vidro com quatro cadeados de aço. Ao sair do mar, o ifrit caminhou pelo prado e foi instalar-se justamente debaixo da árvore em que os dois reis estavam escondidos. Depois de se sentar debaixo da árvore, ele depositou o baú no solo, sacou quatro chaves com as quais abrio os cadeados e dali retirou uma mulher de compleição perfeita, bela jovem de membros gentis, um doce sorriso no rosto de lua cheia. Retirou-a do baú, colocou-a debaixo da árvore, contemplou-a e disse: ´Ó senhora de todas as mulheres livres, a quem seqüestrei na noite de seu casamento, eu gostaria agora de dormir um pouco´. Ato contínuo, o ifrit depositou a cabeça no colo da jovem e estendeu as pernas, que chegram até o mar. E, mergulhando no sono, pôs-se a roncar. A jovem ergueu a cabeça para a árvore e, voltando casualmente o olhar, avistou os reis Sahriyar e Sahzaman. Então ergueu a cabeça do ifrit do seu colo, depositou-a no chão, levantou-se, foi até debaixo da árvore e sinalizou-lhes com as mãos: ´Desçam devagarzinho até mim´. Percebendo que haviam sido vistos, eles ficaram temerosos e suplicaram, humildes, em nome daquele que erguera os céus, que ela os poupasse de descer. A jovem disse: ´É absolutamente imperioso que vocês desçam até aqui´. Eles lhe disseram por meio de sinais: ´Mas isso aí que está deitado é inimigo do gênero humano. Por Deus, deixe-nos em paz´. Ela disse: ´É absolutamente imperioso que vocês desçam. Se acaso não o fizerem, eu acordarei o ifrit e lhe pedirei que os mate´, e continuou fazendo-lhes sinais e insistindo até que eles desceram lentamente da árvore, colocando-se afinal diante dela, que se deitou de costas, ergueu as pernas e disse: ´Vamos, comecem a copular e me satisfaçam, senão eu vou acordar o ifrit para quele mate vocês´. Eles disseram: `Pelo amor de deus, minha senhora, não faça assim. Nós agora estamos com muito medo desse ifrit, estamos apavorados. Poupe-nos disso´. A jovem respondeu: ´É absolutamente imperioso´, insistiu e jurou: ´Por Deus que ergueu os céus, se vocês não fizerem o que estou mandando, eu acordarei meu marido ifrit e mandarei que mate vocês e os afunde nesse mar´. E tanto insistiu que eles não tiveram como divergir: ambos copularam com ela, primeiro o mais velho, e em seguida o mais jovem. Quando terminaram e saíram de cima dela, a jovem disse: ´Dêem-me seus anéis´, e puxou, do meio de suas roupas, um pequeno saco. Abrindo-o, sacudiu seu conteúdo no chão, e dele saíram noventa e oito anéis de diferentes cores e modelos. Ela perguntou: ´Por acaso vocês sabem o que são estes anéis?´. Responderam: ´Não´. Ela disse: ´Todos os donos desses anéis me possuíram, e de cada um eu tomei o anel. E como vocês também me possuíram, dêem-me seus anéis para que eu os junte a estes outros e complete cem anéis; assim, desse ifrit nojento e chifrudo, que me prendeu nesse baú, me trancou com quatro cadeados e me fez morar no meio desse mar agitado e de ondas revoltas, pretendendo que eu fosse, ao mesmo tempo, uma mulher liberta e vigiada. Mas ele não sabe que o destino não pode ser evitado nem nada pode impedi-lo, nem que, quando a mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la´. Ao ouvir as palavras da jovem, os reis Sahriyar e Sahzaman ficaram sumamente assombrados e, curvados de espanto disseram: ´Deus, ó Deus, não existe poderio nem força senão em Deus altíssimo e grandioso! De fato, vossas artimanhas são terríveis´. Retiraram os anéis e os entregaram á jovem, que os recolheu e guardou no saco, indo em seguida sentar-se junto ao ifrit, cuja cabeça ergueu e recolocou no colo conforme estava antes. Depois, fez-lhe sinais: ´Tomem seu caminho senão eu acordo o ifrit´.

Disse o autor: então eles fizeram meia-volta e se puseram em marcha. Voltando-se para o irmão, Sahriyar disse: ´Ó meu irmão Sahzaman, veja sõ essa desgraça: por Deus, é muito pior do que a nossa. Esse aí é um gênio que seqüestrou a jovem na noite de seu noivado, e a trancafiou num baú de vidro com quatro cadeados, e a fez morar no meio do mar alegando que assim a preservaria do juízo e decreto divinos. Mas você viu que ela já tinha sido possuída por noventa e oito homens, e que eu e você completamos os cem. Vamos retornar, mano, para nossos reinos e cidades. Não voltaremos a tomar em casamento mulher alguma. Aliás, de minha parte, eu vou lhe mostrar o que farei´.

Disse o autor: então eles apressaram o passo no caminho. E não deixaram de marchar mesmo durante a noite, chegando, na manhã do terceiro dia, até onde estavm acampadas as tropas. Adentraram o pavilhão e se sentaram no trono. Secretários, delegados, nobres e vizires foram ter com o rei Sahriyar, que estabeleceu proibições, distribuiu ordens, fez concessões, deu presentes e dádivas. Depois, determinou que se entrasse na cidade e todos entraram. Ele subiu ao palácio e deu a seu vizir-mor - pai das já mencionadas jovens Dinarzad e Sahrazad - a seguinte ordem: ´Pegue a minha mulher e mate-a´, e, entrando no aposentdo dela, amarrou-a e entregou ao vizir, que saiu levando-a consigo e a matou. Depois, o rei Sahriar desembainhou a espada e, entrando nos aposentos de seu palácio, matou todas as criadas, trocando-as por outras. E tomou a resolução de não se manter casado senão uma única noite: ao amanhecer, mataria a mulher a fim de manter-se a salvo de sua perversidade e perfídia; disse: ´Não existe sobre a face da Terra uma única mulher liberta´. E, equipando o irmão Sahzaman, enviou-o de volta para sua terra carregando presentes, jóias, dinheiro e outras coisas. Sahzaman despediu-se e tomou o rumo de seu país.

Disse o autor: o rei Sahriyar instalou-se no trono e ordenou a seu vizir - o pai das duas jovens - que lhe providenciasse casamento com alguma filha de nobres, e o vizir assim o fez. Sahriyar possuiu-a e nela satisfez seu apetite. Quando raiou a manhã, ordenou ao vizir que a matasse. Depois, naqula própria noite, casou-se com outra moça, filha de um de seus chefes militares. Possuiu-a e, ao amanhecer, ordenou ao vizir que a matasse, e este, não podendo desobedecer, matou-a. Depois, na terceira noite, casou-se com a filha de um dos mercadores da cidade. Dormiu com ela até o amanhecer e depois ordenou ao vizir que a matasse, e ele a matou.

Disse o narrador: e o rei Sahriyar continuou a se casar a cada noite com uma jovem filha de mercadores ou de gente do vulgo - com ela ficando uma só noite e em seguida mandando matá-la ao amanhecer - até que as jovens escassearam, as mães choraram, as mulheres se irritaram e os pais e as mães começaram a rogar pragas contra o rei, queixando-se ao criador dos céus e implorando ajuda àquele que ouve as vozes e atende as preces.

Disse o copista: o vizir encarregado de matar as moças tinha uma filha chamada Shrazad, mais velha, e outra chamada Dinarzad, mais nova. Sahrazad, mais velha, tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicinaç decorara poesias e consultara as crônicas históricasç conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido.

Disse o autor: certo dia, Sahrazad disse ao pai: ´Eu vou lhe revelar, papai, o que me anda oculto pela mente´. Ele pergunto: ´E o que é?´. Ela respondeu: ´Eu gostaria que você me casasse com o rei Sahriyar. Ou me converto em um motivo para a salvação das pessoas ou morro e me acabo, tornando-me igual a quem morreu e acabou´. Ao ouvir as palavras da filha, o vizir se encolerizou e disse: ´Sua desajuizada! Será que você não sabe que o rei Sahriyar jurou que não passaria com nenhuma moça senão uma só noite, matando-a ao amanhecer? Se eu consentir nisso, ele vai passar apenas uma noite com você, e logo que amanhecer ele vai me ordenar que a mante, e eu terei de matá-la, pois não posso discordar dele´. Ela disse: ´É absolutamente imperioso, papai, que você me dê em casamento a eleç deixe que ele me mate´. Disse o vizir: ´E o que está levando você a colocar sua vida assim em risco?´. Ela disse: ´É absolutamente imperioso, papai, que você me dê em casamento a ele: uma só palavra e uma ação resoluta´. Então o vizir se encolerizou e disse: ´Filhinha. Quem não sabe lidar com as coisas incide no que é vedado. Quem não mede as conseqüências não tem o destino como amigo. E, como se diz num provérbio corrente, Eu estava tranqüilo e sossegado mas a minha curiosidade me deixou ferrado. Eu temo que lhe suceda o mesmo que sucedeu ao burro e ao boi da parte do lavrador´. Ela perguntou: ´E o que sucedeu, papai, ao burro e ao boi da parte do lavrador?´. Ele disse: "

quinta-feira, junho 26, 2008

Sahrazad e as mil e uma noites


Fonte na qual beberam os maiores escritores, o Livro das mil e uma noites é resultado da tradição oral dos povos do oriente de contar histórias e se apresenta em dois ramos: o sírio e o egípcio.
A iniciativa do prof. Mamede Mustafa Jarouche permitiu que tivéssemos a primeira tradução para o português diretamente dos textos em árabe. O trabalho competente e minucioso realizado pelo prof. Jarouche comporá cinco volumes, dos quais já foram publicados três, pela editora Globo.
As histórias e os personagens são conhecidos do público em geral, seja pelas mãos de cineatas (Pasolini), de literatos, ou de teledramaturgos (Sítio do Pica-Pau Amarelo). Mas a narração do original sempre impressiona.
Boa leitura!

"Em nome de Deus, o Misericordioso, o Misericordiador
em quem está minha fé

Louvores a Deus, soberano generoso, criador dos homens e da vida, e que elevou os céus sem pilares, e estendeu as terras e os vales, e das montanhas fez colunas; que de secos rochedos fez a água jorrar; e que aniquilou os povos de Tamud e Ad, e também os poderosos faraós. Reverencio o altíssimo pela orientação com que nos agraciou, e louvo-lhe os méritos incomensuráveis.
E, agora, avisamos aos homens generosos e aos senhores gentis e honoráveis que a elaboração deste agradável e saboroso livro tem por meta o benefício de quem o lê: suas histórias são plenas de decoro, com significados agudos para os homens distintos; por meio delas, aprende-se a arte de bem falar e o que sucedeu aos reis desde o início dos tempos. Denominei-o de livro das mil e uma noites, que contém, igualmente, histórias excelentes, mediante as quais os ouvintes aprenderão fisiognomonia: não os enredará, pois, ardil algum. Este livro, enfim, também os levará ao deleite e à felicidade nos momentos de amargura provocados pelas vicissitudes da fortuna, encobertas de sedutora perversidade. E é Deus altíssimo quem conduz o acerto.
Disse o autor: conta-se - mas Deus conhece mais o que já é ausência, e é mais sábio quanto ao que, nas crônicas dos povos, passou, se distanciou e desapareceu - que havia em tempos remotos, no reino sassânida, nas penínsulas da Índia e da Indochina, dois reis irmãos, o maior chamado Sahriyar e o menor, Sahzaman. O mais velho, Shriyar, era um cavaleiro poderoso, um bravo campeão que não deixava apagar-se o fogo de sua vingança, a qual jamais tardava. Do país, dominou as regiões mais recônditas, e, dos súditos, os mais renitentes. E, depois de assenhorar-se do país e dos 'suditos, entronizou como sultão, no governo da terra de Samarcanda, seu irmão Shzaman, que por lá se estabeleceu, ao passo que ele próprio se estabelecia a Índia e na Indochina.
Tal situação se prolongou por dez anos, ao cabo dos quais Sahriyar, saudoso do irmão, mandou atrás dele seu vizir - o qual tinha duas filhas, uma chamada Shrazad, e a outra, Dinarzad. O rei determinou a esse vizir que fosse até Sahzaman e se apresentasse a ele. Assim, o vizir muniiu-se dos apetrechos necessários e viajou durante dias e noites até chegar a Samarcanda. Sahzaman saiu para recebê-lo acompanhado de membros da corte, descavalgou, abraçou-o e pediu-lhe notícias acerca do irmão mais velho, Sahriyar. O vizir informou-o de que seu irmão estava bem e que o enviara até ali a fim de conduzi-lo à sua presença. Sahzaman, dispondo-se a atender o pedido do irmão, instalou o vizir nas cercanias da cidade, abasteceu-o das provisões e do feno de que necessitava, sacrificou algumas reses em sua homenagem e presenteou-o com jóias e dinheiro, corcéis e camelos, cumprindo assim com suas obrigações de anfitrião. Durante dez dias, preparou-se para a viagem, e, deixando em seu lugar um oficial, arrumou as coisas e foi passar a noite com o vizir, junto ao qual permaneceu até bem tarde, quando então retornou à cidade, subindo ao palácio a fim de se despedir da esposa; ao entrar, porém, encontrou-a dormindo ao lado de um sujeito, um dos rapazes da cozinha: estavam abraçados. Ao vê-los naquele estado, o mundo se escureceu todo em seus olhos e, balançando a cabeça por alguns instantes, pensou: 'Isso e eu nem sequer viajei; estou ainda nos arredores da cidade. Como será então quando eu de fato tiver viajado até meu irmão lá na Índia? O que ocorrerá então depois disso? Pois é, não é mesmo possível confiar nas mulheres!'. Depois, possuído por uma insuperável cólera, disse: 'Deus do céu! Mesmo eu sendo rei, o governante da terra de Samarcanda, me acontece isso? Minha mulher me trai! É isso que se abateu sobre mim!'. E como a cólera crescesse ainda mais, desembainhou a espada, golpeou os dois - o cozinheiro e a mulher - e, arrastando ambos pelas pernas, atirou-os do alto do palácio ao fundo da vala que o cercava. Em seguida, voltou até onde estava o vizir e determinou que a viagem fosse iniciada naquele momento.
Tocaram-se os tambores e começou-se a viagem. No coração do rei Sahzaman, contudo, ardia uma chama inapagável e uma labareda inextinguível por causa do que lhe fizera a esposa: como pudera traí-lo, trocando-o por um cozinheiro, aliás simples ajudante na cozinha? Mas a viagem prosseguia célere: atravessando desertos e terras inóspitas por dias e noites, chegaram afinal à terra do rei Sahriyar, que saiu para recebê-los. Logo que os viu, abraçou o irmão, aproximou-o, dignificou-o e hospedou-o num palácio ao lado do seu: com efeito, o rei Sahriyar possuía um amplo jardim no qual construira dois imponentes, formosos e elegantes palácios, reservando um deles para a hospedagem oficial e destinando o outro para sua própria moradia e também para o harém. Hospedou, portanto, o irmão Sahzaman no palácio dos hóspedes, e isso depois que os camareiros já o haviam lavado, limpado e mobiliado, abrindo-lhe as janelas que davam para o jardim.
Sahzaman permanecia o dia inteiro com o irmão e em seguida subia ao referido palácio para dormir; mal raiava a manhã, dirigia-se de novo para junto do irmão. Mas, mal se via a sós consigo mesmo, punha-se a remoer os sofrimentos que o afligiam por causa da esposa, suspirava fundo, resignava-se melancolicamente e dizia: 'Mesmo eu sendo quem sou, aconteceu-me tamanha catástrofe'. Começava então a mortificar-se, amargurado, dizendo: 'O que me ocorreu não ocorreu a mais ninguém', e sua mente era invadida por obsessões. Diminuiu a alimentação, a palidez se acentuou e as preocupações lhe transtornaram o aspecto. Todo seu ser começou a dar para trás: o corpo definhava e a cor se alterava.
Disse o autor: vendo que seu irmão, dia a dia, se debilitava a olhos vistos, definhando e consumindo-se, cor pálida e fisionomia esquálida, o rei Sahriyar supôs que isso se deveria ao fato de estar ele apartado de seu reino e de sua gente, dos quais se encontrava como que exilado; pensou pois: 'Esta terra não está agradando o meu irmão; por isso, vou preparar um bom presente para ele e enviá-lo de volta a seu país', e, pelo período de um mês dedicou-se a lhe providenciar os presentes; depois, mandou chamá-lo e disse: 'Saiba, meu irmão, que eu pretendo correr com as gazelas: vou sair para caçar por dez dias e, ao retornar, farei os arranjos para a sua viagem de volta. Que tal ir caçar comigo?'. Respondeu-lhe: 'Irmão, opresso trago o peito, e turvo o pensamento. Deixe-me e viaje você, com a bênção e a ajuda de Deus'. Ao ouvir tais palavras, Sahriyar acreditou que, de fato, o irmão tinha o peito opresso por estar afastado de seu reino, e não quis forçá-lo a nada; por conseguinte, deixou-o e viajou com membros da corte e os soldados; penetraram numa região selvagem, onde demarcaram e cercaram o espaço para caçar e montar armadilhas.
Disse o autor: quanto a Sahzaman, depois que o irmão saiu para a caçada, ele ficou no palácio: olhando pela janela para a direção do jardim, observava pássaros e árvores e pensava na esposa e no que ela fizera contra ele; suspirou profundamente, o semblante dominado pela tristeza.
Disse o narrador: enquanto ele, assim absorto em seus pensamentos e aflições, ora contemplava o céu, ora percorria o jardim com olhar merencório, eis que a porta secreta do palácio de seu irmão se abriu, dela saindo sua cunhada: entre vinte criadas, dez brancas e dez negras, ela se requebrava como uma gazela de olhos vivos. Sahzaman os via sem ser visto. Continuaram caminhando até chegar ao sopé do palácio onde estava Sahzaman, a quem não viram: todos imaginavam que viajara na expedição de caça junto com o irmão. Assentaram-se sob o palácio, arrancaram as roupas e eis que se transformaram em dez escravos negros e dez criadas, embora todos vestissem roupas femininas: os dez agarraram as dez, enquanto a cunhada gritava: 'Mas ud! ó Mas ud!; então um escravo negro pulou de cima de uma árvore ao chão e imediatamente achegou-se a ela; abriu-lhe as pernas, penetrou entre suas coxas e caiu por cima dela. Assim ficaram até o meio do dia: os dez sobre as dez e Mas ud montado na senhora. Quando se satisfizeram e terminaram o serviço, foram todos se lavar; os dez escravos negros vestiram trajes femininos e misturaram-se às dez moças, tornando-se, aos olhos de quem os visse, um grupo de vinte criadas. Quanto a Mas ud, ele pulou o muro do jardim e arrepiou caminho. As vinte escravas, com a senhora no meio delas, caminharam até chegar à porta secreta do palácio, pela qual entraram, trancando-a por dentro e indo cada qual cuidar de sua vida.
Disse o copista: tudo o que ocorreu foi presenciado pelo rei Sahzaman.
Disse o autor: ao ver o procedimento da esposa de seu irmão mais velho, e discernir sobre o que havia sido feito - isto é, tendo observado essa atroz calamidade, essa desgraça que ocorria ao irmão dentro de seu próprio palácio: dez escravos em trajes femininos copulando, ali, com suas concubinas e criadas, além da cena da cunhada com o escravo Mas ud -, enfim, ao ver tudo isso, o coração de Sahzaman se libertou de aflições e transtornos, e ele pensou: 'Eis nossa condição! Meu irmão é o maior rei da terra, governante de vastas extensões, e isso despenca sobre ele em seu próprio reino, sobre sua esposa e concubinas: a desgraça está dentro de sua própria casa! Comparado a isso, o que me ocorreu diminui de importância, justo eu que imaginava ser a única vítima dessa catástrofe; estou vendo, porém, que qualquer um pode ser atingido! Por Deus, a minha desgraça é mais leve que a do meu irmão!. Depois, perplexo, pôs-se a censurar a fortuna, de cujas adversidades ninguém está a salvo. Estava assim esquecido de suas angústias e entretido com sua desgraça quando lhe trouxeram o jantar, que ele devorou com apetite e gosto; também lhe trouxeram bebida, que ele bebeu com igual vontade. Dissiparam-se as mágoas que trazia no pensamento, e ele, tendo comido, bebido e se alegrado, disse: 'Depois de ter padecido sozinho em razão dessa desgraça, agora me sinto bem'. E durante dez dias comeu e bebeu.
Ao retornar da caça, o irmão mais velho foi recebido por um Sahzaman alegre, que se dispôs a servi-lo com um sorriso no rosto. Estranhando aquilo, o rei Shriyar disse: 'Por Deus, meu irmão, que senti saudades de você durante a viagem! Eu queria mesmo é que você estivesse comigo'.
Disse o copista: Sahzaman agradeceu ao irmão e ficou conversando com ele até o crepúsculo, quando então lhes foi servido o jantar. Ambos comeram e beberam. Sahzaman bebeu com sofreguidão.
Disse o autor: e Sahzaman continuou pelos dias seguintes bebendo e comendo. Suas preocupações e obsessões se dissiparam, seu rosto se avermelhou, seu ânimo se fortaleceu: ele recobrou as cores e engordou, retomando e até mesmo melhorando sua condição inicial. Embora percebesse as mudanças que se operavam no irmão, o rei Sahriyar guardou aquilo no coração. Mas um dia, estando a sós com ele, disse: 'Meu irmão Sahzaman, eu quero que você me esclareça algo que trago cá na mente, e me liberte do peso que carrego no coração. Vou lhe fazer uma pergunta sobre um assunto e você deve responder a verdade'. Perguntou Sahriyar: 'Logo que chegou aqui e se hospedou comigo, notei que você dia a dia definhava a olhos vistos, até que seu rosto se alterou, sua cor se transformou e seu ânimo se debilitou. Como essa situação se prolongasse, julguei que semelhante acometimento se devia ao fato de você estar afastado dos seus parentes e do seu reino. Por isso, evitei indagar a respeito e passei a esconder as minhas preocupações de você, muito embora o visse definhar e se alterar mais e mais. Porém, depois que eu viajei para a caça e regressei, vi que a sua situação se consertou e sua cor se recobrou. Agora, eu gostaria muito que você me informasse sobre isso e me dissesse qual foi o motivo das alterações que o atingiram aqui no início e qual o motivo da recuperação de seu viço. E não esconda nada de mim'.
Disse o copista: ao ouvir as palavras do rei Sahriyar, Sahzaman manteve-se por alguns instantes cabisbaixo e depois disse: "Ó rei, quanto ao motivo que consertou o meu estado, eu não posso informar-lhe a respeito, e gostaria que você me poupasse de mencioná-lo". Muitíssimo intrigado com as palavras do irmão, que lhe atiçaram chamas no coração, o rei Sahriyar disse: 'É absolutamente imperioso que você me informe sobre isso. Agora, no entanto, fale-me sobre o primeiro motivo".
Disse o autor: então Sahzaman contou em pormenores o que lhe sucedera por parte da esposa na noite da viagem. Disse: 'Enquanto eu estava aqui, ó rei dos tempos, nos constantes mometos em que pensava na calamidade que minha esposa fizera abater-se sobre mim, era atingido por aflições, obsessões e preocupações. Meu estado então se alterou, esse foi o motivo'. E se calou. Ao ouvir a história, o rei Sahriyar balançou a cabeça, tomado de grande assombro por causa das perfícias femininas e, depois de ter rogado auxílio divino contra sua perversidade, disse: 'Por Deus, meu irmão, que você agiu da melhor maneira matando sua mulher e tal homem. Está justificado o motivo pelo qual você foi atingido por preocupações e obsessões, e por que seu estado se alterou. Não presumo que isso que lhe sucedeu tenha sucedido a qualquer outro. Juro por Deus que, se fosse eu, não me bastaria matar menos de cem mulheres ou mil mulheres; não, eu ficaria louco e sairia por aí alucinado. Porém agora, graças a Deus, como as suas preocupações e tristezas se dissiparam, deixe-me a par do motivo que desvaneceu as suas preocupações e o fez recobrar a cor'. Respondeu Sahzaman: 'Ó rei, eu gostaria que, por Deus, você me poupasse disso'. Disse Sahriyar: 'Mas é absolutamente imperioso'. Disse Sahzaman: 'Eu temo que você seja atingido por preocupações e obsessões bem mais graves que as minhas'. Disse Sahriyar: 'E como pode ser isso, meu irmão? Não, já não existe possibilidade de retorno: faço questão ouvir a história'.
Disse o autor: então o irmão menor lhe relatou o que vira através da janela do palácio, e a desgraça que ocorria em seu palácio - que dez escravos em trajes femininos dormiam entre suas concubinas e mulheres durante a noite e o dia, etc. etc., pois repetir agora toda a história seria perda de tempo - 'e ao ver a desgraça que se abateu sobre você, as preocupações por causa da minha própria desgraça se dissiparam, e eu disse de mim para mim: 'mesmo sendo meu irmão o maior rei da terra sucedeu-lhe tamanha desgraça dentro de sua casa'. Foi assim que me libertei das preocupações e desapareceu aquilo que no peito eu carregava; reconfortei-me, comi e bebi. Eis o motivo de minha alegria e da recuperação de minha cor'.
Disse o autor: ao ouvir as palavras do irmão sobre o que estava ocorrendo em seu palácio, o rei Sahriyar ficou terrivelmente encolorizado, a tal ponto que quase começou a pingar sangue. Depois disse: 'Meu irmão, só acreditarei no que você disse se eu vir com meus próprios olhos para acreditar em mim, então arme uma nova expedição de caça; sairemos eu e você com os soldados, e quando estivermos acampados fora da cidade deixaremos nossos pavilhões, tendas e soldados como estiverem e retornaremos, eu e você, secretamente à cidade. Você subirá comigo até o palácio e poderá então ver tudo com seus próprios olhos'.
Disse o autor: o rei reconheceu que a proposta de seu irmão era correta. Ordenou aos soldados que se preparassem para viajar e permaneceu com o irmão naquela noite. Quando Deus fez amanhecer o dia, os dois montaram em seus cavalos, os soldados também montaram o pavilhão real e seu vestíbulo. E o sultão e seus soldados se instalaram. Ao anoitecer, o rei enviou uma mensagem ao seu secretário-mor ordenando-lhe que ocupasse seu lugar e que não deixasse nenhum dos soldados entrar na cidade durante três dias, bem como outras instrucões relativas aos soldados.
Ele e o irmão se disfarçaram e entraram na cidade durante a noite, subindo ao palácio no qual Sahzaman estava hospedado. Ali dormiram até a alvorada, quando então se postaram na janela do palácio e ficaram observando o jardim. Conversaram até que a luz do dia se irradiou e o sol raiou. Olharam para a porta secreta, que fora aberta e da qual saiu a esposa do rei Sahriyar, conforme o hábito, entre vinte jovens; caminharam sob as árvores até chegar ao sopé do palácio em que ambos estavam, tiraram as roupas femininas, eis que eram dez escravos que se lançaram sobre as dez jovens e as possuíram. Quanto à senhora, ela gritou: 'ó Mas ud! ó Mas ud!', e eis que um escravo negro pulou ligeiro de cima de uma árvore ao chão; encaminhou-se até ela e disse: 'O que você tem, sua arrombada? Eu sou Sa duddin Mas ud!' Então a mulher riu e se deitou de costas, e o escravo se lançou sobre ela e nela se satisfez, bem como os outros escravos. Em seguida, os escravos levantaram-se lavaram-se, vestiram os trajes femininos que estavam usando e se misturaram às moças, entrando todos no palácio e fechando a porta. Quanto a Mas ud, ele pulou o muro, caiu na estrada e tomou seu rumo.
Disse o autor: em seguida, ambos desceram do palácio. Ao ver o que sua esposa e criadas lhe faziam, o sultão Sahriyar ficou transtornado e disse: 'Ninguém está a salvo neste mundo. Isso ocorre dentro de meu palácio, dentro de meu reino. Maldito mundo, maldita fortuna. Essa é uma terrível catástrofe'. E, voltando-se para o irmão, disse: 'Você me acompanha no que eu vou fazer agora?'. O irmão respondeu: 'Sim'. Sahriyar disse: ' Vamos abandonar nosso reino e perambular em amor a Deus altíssimo. Vamos desaparecer daqui. Se por acaso encontrarmos alguém cuja desgraça seja pior do que a nossa, voltaremos; caso contrário, continuaremos vagando pelo mundo, sem necessidade alguma de poder. Disse Sahzaman: 'Esse é um excelente parecer. Eu vou acompanhar você'."
(Continua em uma próxima postagem)

segunda-feira, abril 21, 2008

"Os Jornalistas" - uma série



"A Imprensa, como a mulher, é admirável e sublime quando conta uma mentira. Não o deixa em paz até tê-lo forçado a acreditar nela, e emprega as melhores qualidades nesta luta onde o público, tão tolo quanto um marido, sucumbe sempre"
Balzac



A idéia de publicar esta série surgiu antes do caso Isabella e a exploração midiática da tragédia acontecida em São Paulo.
Por acaso vi o livro "Os Jornalistas" na estante de uma biblioteca e ao folheá-lo me interessou bastante o estilo utilizado por Honoré de Balzac para tratar do papel da imprensa nos nossos dias.
Vou apresentá-lo em capítulos, nem sempre seguindo a ordem do livro. Mas sempre fiel ao conteúdo e à tradução. Todavia, não poderei publicar as notas do Editor, do tradutor e do autor.


" Monografia da Imprensa Parisiense AVISO AOS FALSIFICADORES A ordem GENDELETTRE (como Gendarme) tendo se constituído em sociedade para defender suas propriedades, era normal que acontecesse aquilo que acontece na França com muitas instituições, uma antítese entre o objetivo e os resultados: as propriedades literárias são mais pilhadas do que nunca. E, como a Bélgica está tanto na França quanto em Bruxelas, somos forçados, nós editores, a inda sob o império do direito comum, a declarar inocentemente:
Que a MONOGRAFIA DA IMPRENSA PARISIENSE nos pertence,

Que o registro foi feito em conformidade com as leis,
Que toda publicação desta obra será processada, visto que a reprodução está proibida, como necessário, em nome do autor.

Ouvimos Victor Hugo exprimindo, parafraseando, com a eloqüência que lhe é própria, um belo pensamento que nos aventuramos a traduzir assim:

A França tem duas faces. Eminentemente militar em tempos de guerra, ela é igualmente poderosa em tempos de paz por suas idéias. A Pluma e a Espada, estas são as suas duas armas favoritas. A França é inventiva, porque tem genialidade; é artista, porque a Arte é o complemento das Letras; é comerciante, manufatureira, agrícola, porque uma nação deve produzir como uma lagarta fia seu casulo; mas, nestes três pontos, ela tem rivais que, no momento, ainda lhe são superiores; mesmo depois de seus exércitos terem lutado durante quinze anos contra o mundo, e enquanto suas idéias lhe dão o governo moral deste mesmo mundo.
Os ingleses têm uma encantadora e proverbial expressão para caracterizar a necessidade em que nós nos encontramos de falar sobre nós mesmos: "Parece", eles dizem, "que a trombeta deste cavalheiro está morta". Victor Hugo falava pela França. Não é infeliz que a incúria do governo atual, em relação às Letras, tenha forçado nosso grande poeta a dizer o que só deveria ser pensado pela Europa? Se a pluma da França possui um tal poder, não seria necessário dar a descrição analítica da Ordem Gendelettre (como Gendarme)?
E, nesta ordem, não seria preciso colocar à frente o Gênero Publicista e o Gênero Crítico, que compõem, juntamente com seus Subgêneros e suas variedades, a Imprensa parisiense, esta terrível potência cuja queda é incessantemente retida por culpa do poder?

Axioma
A imprensa será morta como será morto um povo: dando-lhe a liberdade.

É sobretudo para esta parte deste Tratado do Bímano em sociedade que nós trouxemos a atenção a qual a Zoologia deu às Monografias do Anelídeos, dos Moluscos, dos Entozoários, e que não podia faltar a Espécies Morais tão curiosas. Nós esperamos que as nações estrangeiras venha a ter algum prazer lendo esta porção de História Natural Social à qual uma ilustração vigorosa dá todo o mérito da iconografia.

CARÁTERES GERAIS - O principal caráter destes dois gêneros é não ter nenhum caráter. Os indivíduos que pertencem ao Subgênero do Publicista de carteira (faça como o governo, olhe mais para baixo), que deveriam ter um caráter qualquer, não têm como oferecer a menor aparência; por que então eles não se enquadrariam essencialmente dentro das condições da política francesa, que escapa a todas as definições, e se entrega à filosofia através de contínuas ausências de sentido. Pode-se perceber, porém, alguns indivíduos que, escrevendo sempre a mesma coisa, repetindo o mesmo artigo - por impossibilidade, aliás, de encontrar um outro -, passam por ter caráter; mas são evidentemente uns maníacos cuja loucura sem perigo insensibiliza o assinante-confiante e alegra o assinante-espírito forte. Se os estrangeros se admiram com este defeito, eles devem ter em conta o espírito nacional que exige uma mobilidade tão grande entre os Homens quanto nas Instituições. O público, na França, acha aborrecidas as pessoas com convicções, e acusa as pessoas com mobilidade de não terem caráter. Este dilema, perpetuamente dirigido contra os indivíduos destes dois Gêneros, torna sua posição extremamente crítica. Quando um escritor espirituoso vai, como uma mosca lasciva, de jornal em jornal, que seja alternadamente monarquista, ministerial, liberal, reministerial, e continue a escrever secretamente em todos os jornais, vai-se dizer dele: 'É um homem sem consistência!' Quando um escritor se faz de marido enganado liberal, marido enganado humanitário, marido enganado de oposição, e não varia seu tema, diz-se dele: 'É um homem tedioso.' Assim, o indivíduo mais espiritual é o Nadólogo e o Escritor monobíblia. Estas duas Variedades evitam os perigos do dilema tornando-se ilegíveis. (Olhe como o governo, cada vez mais para baixo.)
Em relação ao aspecto físico, estes indivíduos em geral não têm beleza, apesar de encomendarem para si próprios imagens de bustos notáveis com a ajuda da litografia, gesso, estatuetas e falsos topetes. Quase todos são destituídos desta polidez que os escritores do século XVIII deviam a seu comércio com os salões onde eram festejados. Eles vivem isolados, separados por suas pretensões, e se conhecem pouco entre si, tanto eles têm medo de ter más consciências. Esta vida solitária não impede todos os indivíduos de exercerem sua inveja em relação à posição, ao talento, à fortuna e às vantagens pessoais de seus confrades, de forma que sua feroz mania de igualdade vem precisamente do fato de que eles reconhecem entre eles as mais contundentes desigualdades." (continua...)

* Na imagem: O nascimento de Vênus - Sandro Botticelli.

quinta-feira, maio 10, 2007

Portal Literal


Uma boa dica para os que gostam de literatura: Portal Literal.
Entre os vários recursos que o Portal oferece estão trechos de livros. Selecionei um que cabe ao momento. Não bebo o Periquita, não é 28 de junho, nem 5 de julho, nem fumo o Corona Supremo da Suerdieck, mas estou bem acompanhado de um Cohiba siglo V, dum gran reserva tannat e duma maminha, temperada com adobo. Agora, quanto a Amanda ou a Luíza...
Trecho de "E DO MEIO PROSTITUTO SÓ AMORES GUARDEI AO MEU CHARUTO", selecionado por Rubem Fonseca:
"Li o laudo do exame cadavérico de Regina, o tiro que ela recebera fora no rosto, igual ao que acontecera com Hilde. O assassino conversava com elas, que olhavam para ele na hora do disparo.
Raul estava quieto demais. Fui tomar um vinho com ele, como nos velhos tempos, enxugamos duas garrafas de Periquita, mas quanto mais ele ouvia mais ouvinte se tornava. Soube apenas que ele procurara Irina, a irmã de Regina, que contou que Gustavo estivera na casa delas dias antes de Regina ser assassinada. Alertei Irina para evitar Raul. Sentia que ele estava se preparando para dar um bote. Quando Raul me telefonou dizendo que queria que o meu cliente depusesse em cartório eu sabia que iria fazer perguntas sobre o envolvimento de Gustavo com Hilde e com Regina. Pedi a Gustavo que viesse ao meu escritório para irmos juntos à delegacia.
Ele estava muito pálido. “Você consegue ficar cada vez mais pálido... Mas esse descoramento deve ter um limite. Você já foi ao médico ver isso?”
“Em certos momentos de emoção”, disse Gustavo, “a capacidade do meu sangue de distribuir oxigênio pelo organismo é reduzida drasticamente. Esse fenômeno, por uma estranha coincidência, começou a acontecer comigo depois que houve um..., aquele acidente, você sabe, o caso Delamare, que afetou certo órgão do meu corpo. Por isso cheguei a estabelecer um nexo de causalidade entre as duas coisas. O dr. Plinger, porém, acha isso apenas hipoteticamente possível, ele diz que eu sofro de uma patologia rara a que Plinger, na falta de melhor terminologia, denomina pseudanemia intermitente de origem psíquica. Pseudo porque não vem acompanhada dos outros sintomas de anemia - fadiga, vertigem, fraqueza - e os exames de sangue não mostram redução do conteúdo de hemoglobina ou do número de eritrócitos. Plinger gostaria de obter uma amostra de meu sangue num desses momentos de palescência, mas nunca fico pálido quando vou ao consultório dele. Ele diz que sou um caso médico interessante.”
“A medicina está cheia de pseudices. Já fumou o Corona Supremo da Suerdieck?”
“Já. Não é um mau charuto, combure corretamente.”
“Então fuma um desses. Para variar.”
Acendemos nossos Suerdiecks.
“Raul vai fazer perguntas sobre seu envolvimento com Hilde e Regina. Vai querer saber onde você estava nas noites dos dias em que Hilde e Regina foram assassinadas. Hilde foi assassinada no dia 28 de junho e Regina no dia 5 de julho. Por coincidência duas sextas-feiras.”
“Vinte e oito de junho... Acho que estava sozinho...”
“E no dia 5 de julho?”
“Estava com uma senhora. Não posso envolver o nome dela.”
“Mais uma mulher casada no seu currículo?”
“Essa é viúva.”
“Então qual é o problema?”
“O problema é que não vou sujar o nome de uma senhora honrada para me livrar daquele idiota do Raul.”
“Entendo os seus escrúpulos. Mas precisamos de alguém que deponha dizendo que estava com você pelo menos numa dessas noites. Amanda ou Luíza, uma delas pode testemunhar dizendo que estava com você na noite do dia 28 de junho? Teremos pelo menos um álibi para um dos dias.”
“Você está propondo que eu minta.”
“Estou propondo salvar a sua pele. Sei que você não matou essas mulheres.”
“Como você sabe?”
“Você é como eu. Quem ama as mulheres como nós não tira a vida delas.”