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segunda-feira, setembro 07, 2009

Blogs do Norte

Excelente matéria na Época trata da liberdade de expressão e de comunicação em alguns estados do norte do Brasil.
Dá gosto de ler algo assim tão raro no jornalismo dos dias atuais, quase completamente ocupado com crises, escândalos, cpi's e outros tipos de fofocas.
Para ler, clique aqui.

domingo, agosto 30, 2009

A "cabana" do Belchior



Tem que rir pra não chorar. Não bastasse a presepada do fantástico ao dar por desaparecido o compositor Belchior, o Ultimo Segundo publica que ele está morando numa cabana no Uruguay. Ao ler o título da matéria fiquei imaginando algo como uma casinha de sapé, ou um quiosque com paredes, ou até mesmo aquelas cabanas dos filmes de faroeste da sessão da tarde da década de 70-80. A essa altura a imagem de Belchior que guardava na memória se transformava em uma espécie de hippie ou de um apache. Li novamente o título e me lembrei que no Uruguai e Argentina existe uma palavra muito semelhante a cabana, cabaña. Pronto, o falso cognato poderia desfazer a confusão no meu imaginário. Consultado o dicionário da Real Academia de España (está disponível on line) encontrei no seu sétimo significado a confirmação da minha hipótese: cabaña. (Del lat. capanna, choza, de capĕre, caber). 1. f. Construcción rústica pequeña y tosca, de materiales pobres, generalmente palos entretejidos con cañas, y cubierta de ramas, destinada a refugio o vivienda de pastores, pescadores y gente humilde. 2. f. Conjunto de los ganados de una hacienda, región, país, etc. 3. f. Recua de caballerías que se emplea en portear granos. 4. f. En el juego de billar, espacio dividido por una raya a la cabecera de la mesa, desde el cual juega el que tiene bola en mano. 5. f. Pint. Cuadro en que hay pintadas cabañas de pastores con aves y animales domésticos. 6. f. Am. Casa pequeña de una sola planta que se suele construir en parajes destinados al descanso. 7. f. Arg. y Ur. Establecimiento rural destinado a la cría de ganado de raza. ~ real. 1. f. Conjunto de ganado trashumante propio de los ganaderos que componían el Concejo de la Mesta. Alguns podem achar que se trata de um erro banal, corriqueiro. Não sei. Se fosse um caso isolado, ainda vá. Mas esses e outros erros são tão freqüentes no jornalismo brasileiro atual (grande mídia que quer ser "A" opinião pública) que não dá pra tolerar. Fico pensando que erros grosseiros como esses podem ser percebidos e criticados pelos leitores, mas os mais refinados podem muito bem passar em branco e se tornarem "grandes verdades". Afinal de contas, o que é só um errinho?

sexta-feira, maio 30, 2008

Os Jornalistas - Terceira Variedade - O Fabricante de Artigos de Fundo



Este redator, ocupado com matérias especiais, sai da fraseologia dos Primiers-Paris. Ele pode ter uma opinião no que não diz respeito ao fundo comum da política, pois deve sempre se ligar à opinião dos jornais através de algumas frases. Estudando as questões comerciais ou agronômicas, os livros de alta ciência, este publicista conserva retidão nas idéias. Assim ele tem mais valor real que o Tenor. Raramente vai ao jornal, e seus artigos se contam na base de três ou quatro todo mês. O Primier-Paris, sempre preparado pelos acontecimentos, amassa-se na Ópera, nos corredores da Câmara, em jantar na casa do patrão político do jornal (olhe sempre mais embaixo); enquanto o artigo de fundo exige o conhecimento do livro do qual se trata e da ciência da qual se ocupa; assim este redator ganha pouco dinheiro, e pode se comparar a este tipo de papel que nós chamamos de as grandes utilidades do teatro.
Nos jornais ministeriais, estes redatores têm um futuro: tornam-se cônsules-gerais nas paragens mais distantes, são nomeados secretários particulares pelos ministros, ou cumprem outras missões oficiais; enquanto aqueles da Oposição ou dos jornais antidinásticos só têm como asilo as academias de ciências morais e políticas, as inscrições e as belas letras, algumas bibliotecas, até mesmo os Arquivos, ou o triunfo excessivamente problemático de seu partido. O artigo de fundo faz falta nos jornais, que começam a ficar cheios de vazio. Nenhuma folha é rica o suficiente para retribuir o talento consciencioso e os estudos sérios. (Veja o Gênero Crítico)

domingo, maio 04, 2008

Os Jornalistas - Primeiro Gênero: O Publicista




Capítulo 2 da série Os Jornalistas:

"O Publicista

Oito subgêneros

A. O JORNALISTA;
B. O HOMEM DE ESTADO;
C. O PANFLETÁRIO;
D. O NADÓLOGO;
E. O PUBLICISTA DE CARTEIRA;
F. O ESCRITOR MONOBÍBLIA;
G. O TRADUTOR;
H. O AUTOR COM CONVICÇÕES.

Publicista, este nome outrora atribuído aos grandes escritores como Grotius, Puffendorf, Bodin, Montesquieu, Blakstone, Bentham, Mably, Savary, Smith, Rousseau, tornou-se o de todos os escrivinhadores que fazem política. De generalizador sublime, de profeta, de pastor das idéias que era outrora, o Publicista é agora um homem ocupado com os compassos flutuantes da Atualidade. Se alguma espinha aparece na superfície do corpo político, o Publicista a coça, a desdobra, a faz sangrar e tira dela um livro que, quase sempre, é uma mistificação. O publicismo era um grande espelho concêntrico: os publicistas de hoje o quebraram e têm todos um pedaço que eles fazem brilhar aos olhos da multidão. Estes diferentes pedaços aqui estão:

A. O JORNALISTA

Cinco Variedades:
1a. - o Diretor-redator-em-chefe-proprietário-gerente;
2a. - o Tenor;
3a. - o Fabricante de artigos de fundo;
4a. - o Mestre-Jacques;
5o. - os Camarilhistas.


Primeira Variedade

O Diretor-redator-em-chefe-proprietário-gerente

Esta bela espécie é o marquês de Tuffière do jornalismo [pessoa orgulhosa, arrogante]. Publicista por aquilo que não escreve, como os outros são publicistas por aquilo que escrevem demais, este indivíduo, que oferece sempre uma das quatro faces de seu título quádruplo, tem algo do proprietário, do dono de mercearia, do especulador, e, como ele não é conveveniente para nada, acba sendo conveniente para tudo. Os redatores transformam este proprietário ambicioso em um homem enorme que quer ser e se torna às vezes perfeito, conselheiro de Estado, recebedor-geral, diretor de teatro, quando não tem o bom senso de continuar a ser o que é: o porteiro da glória, a trombeta da especulação e o Bonneau do eleitorado [conselheiro]. Ele faz os artigos passarem à vontade, ou os deixa resfriar sobre o mármore da tipografia. Pode empurrar um livro, um caso, um homem, e pode às vezes arruinar o homem, o caso, o livro, segundo as circunstâncias. Este Bertrand de todos os Ratons do jornal se dá com a alma da folha, e necessariamente todo Gabinete trata com ele. Daí sua importância. De tanto conversar com os redatores, agita as suas idéias, tem o ar de quem tem grandes visões e se coloca como um verdadeiro personagem. É ou um homem forte ou um homem hábil que se faz representar por uma dançarina, por uma atriz ou uma cantora, algumas vezes por sua mulher legítima, a verdadeira potência oculta do Jornal.

Axioma

Todas as folhas públicas têm por leme uma saia de baixo em crinolina, absolutamente como na antiga monarquia.


Só houve (ele morreu) um diretor de jornal, na verdadeira acepção desta palavra. Este homem era sábio, tinha uma personalidade forte, tinha genialidade; assim jamais escrevia coisa alguma. Os redatores vinham até ele, todas as manhãs, escutar a orientação dos artigos a serem escritos. Este personagem não tinha ambição: ele fez pares, ministros, acadêmicos, professores, embaixadores e uma dinastia, sem jamais querer algo para si próprio; ele recusou a visita de um rei, tudo, até a cruz da Legião de Honra. Ancião, ele era apaixonado; jornalista, nem sempre in petto tinha a mesma opinião do seu jornal. Todos os jornais de hoje em dia colocados juntos, proprietários e redatores não são nada perto desta personalidade.
Instrução e conhecimentos à parte, não basta apenas uma centena de milhares de francos e uma garantia para se tornar Diretor-redator-em-chefe-proprietário-gerente de um jornal: são necessárias ainda circunstâncias, uma vontade brutal e uma espécie de capacidade teatral que, com freqüência, as pessoas de verdadeiro talento não têm. Assim, vê-se em Paris muitas pessoas que sobrevivem ao seu poder expirado. O Jornal tem seus Fernán [Fernand, no original] Cortez infelizes, como a Bolsa tem seus ex-milionários. O insucesso, se devendo às tentativas, explica o número assustador de máscaras tristes que os parisienses mostram aos observadores que os estudam passeando pelos bulevares. Desde 1830, não houve menos de cinqüenta jornais mortos sob a ambição pública, o que representa aproximadamente perto de dez milhões de capitais devorados. Nós vimos, nós vemos ainda jornais se estabelecendo em Paris com o pensamento de arruinar os jornais antigos fazendo um jornal inferior em todos os pontos em relação àquele que eles desejam derrubar. O ex-Diretor-redator-em-chefe-proprietário-gerente de jornal não é mais um homem, nem uma coisa, é a sombra desprezada de um feto de ambição.
Há três tipos de proprietários-diretores-redatores-em-chefe do Jornal: o ambicioso, o homem de negócios, o puro-sangue.
O ambicioso empreende um jornal seja para defender um sistema político cujo triunfo o interessa, seja para se tornar um homem político fazendo-se temer. O homem de negócios vê em um jornal uma aplicação de capitais cujos juros lhe são pagos em influência, em prazeres e algumas vezes em dinheiro. O puro-sangue é um homem no qual a gerência é uma vocação, que compreende esta dominação, que tem prazer na exploração das inteligências, sem abandonar, porém, os lucros do jornal. Os dois outros fazem de sua folha um meio; enquanto que, para o puro-sangue, sua folha é sua fortuna, sua casa, seu prazer, sua dominação: os outros se tornam personagens, o puro-sangue vive e morre jornalista.
Os proprietários-redatores-em-chefe-diretores-gerentes de jornais são ávidos e rotineiros. Parecidos, eles e suas folhas, ao governo que atacam, têm medo de inovações e perecem com freqüência por não saber fazer os gastos necessários e em harmonia com o progresso das luzes.

Axioma

Todo jornal que não aumenta sua massa de assinantes, seja ela qual for, está em decrescimento.


Um jornal, para ter uma longa existência, deve ser uma reunião de homens de talento, ele deve fazer escola. Infelizes os jornais que se apóiam em apenas um talento!
Na maior parte do tempo, o diretor fica com ciúmes das pessoas de talento que lhe são necessárias, cerca-se então de pessoas medíocres que o bajulam e lhe fazem seu jornal bem barato. Morre-se sempre sendo o jornal mais bem-feito de Paris."

(continua)

* a imagem: Le Pont-Neuf (Camile Pissarro, 1902)

segunda-feira, abril 21, 2008

"Os Jornalistas" - uma série



"A Imprensa, como a mulher, é admirável e sublime quando conta uma mentira. Não o deixa em paz até tê-lo forçado a acreditar nela, e emprega as melhores qualidades nesta luta onde o público, tão tolo quanto um marido, sucumbe sempre"
Balzac



A idéia de publicar esta série surgiu antes do caso Isabella e a exploração midiática da tragédia acontecida em São Paulo.
Por acaso vi o livro "Os Jornalistas" na estante de uma biblioteca e ao folheá-lo me interessou bastante o estilo utilizado por Honoré de Balzac para tratar do papel da imprensa nos nossos dias.
Vou apresentá-lo em capítulos, nem sempre seguindo a ordem do livro. Mas sempre fiel ao conteúdo e à tradução. Todavia, não poderei publicar as notas do Editor, do tradutor e do autor.


" Monografia da Imprensa Parisiense AVISO AOS FALSIFICADORES A ordem GENDELETTRE (como Gendarme) tendo se constituído em sociedade para defender suas propriedades, era normal que acontecesse aquilo que acontece na França com muitas instituições, uma antítese entre o objetivo e os resultados: as propriedades literárias são mais pilhadas do que nunca. E, como a Bélgica está tanto na França quanto em Bruxelas, somos forçados, nós editores, a inda sob o império do direito comum, a declarar inocentemente:
Que a MONOGRAFIA DA IMPRENSA PARISIENSE nos pertence,

Que o registro foi feito em conformidade com as leis,
Que toda publicação desta obra será processada, visto que a reprodução está proibida, como necessário, em nome do autor.

Ouvimos Victor Hugo exprimindo, parafraseando, com a eloqüência que lhe é própria, um belo pensamento que nos aventuramos a traduzir assim:

A França tem duas faces. Eminentemente militar em tempos de guerra, ela é igualmente poderosa em tempos de paz por suas idéias. A Pluma e a Espada, estas são as suas duas armas favoritas. A França é inventiva, porque tem genialidade; é artista, porque a Arte é o complemento das Letras; é comerciante, manufatureira, agrícola, porque uma nação deve produzir como uma lagarta fia seu casulo; mas, nestes três pontos, ela tem rivais que, no momento, ainda lhe são superiores; mesmo depois de seus exércitos terem lutado durante quinze anos contra o mundo, e enquanto suas idéias lhe dão o governo moral deste mesmo mundo.
Os ingleses têm uma encantadora e proverbial expressão para caracterizar a necessidade em que nós nos encontramos de falar sobre nós mesmos: "Parece", eles dizem, "que a trombeta deste cavalheiro está morta". Victor Hugo falava pela França. Não é infeliz que a incúria do governo atual, em relação às Letras, tenha forçado nosso grande poeta a dizer o que só deveria ser pensado pela Europa? Se a pluma da França possui um tal poder, não seria necessário dar a descrição analítica da Ordem Gendelettre (como Gendarme)?
E, nesta ordem, não seria preciso colocar à frente o Gênero Publicista e o Gênero Crítico, que compõem, juntamente com seus Subgêneros e suas variedades, a Imprensa parisiense, esta terrível potência cuja queda é incessantemente retida por culpa do poder?

Axioma
A imprensa será morta como será morto um povo: dando-lhe a liberdade.

É sobretudo para esta parte deste Tratado do Bímano em sociedade que nós trouxemos a atenção a qual a Zoologia deu às Monografias do Anelídeos, dos Moluscos, dos Entozoários, e que não podia faltar a Espécies Morais tão curiosas. Nós esperamos que as nações estrangeiras venha a ter algum prazer lendo esta porção de História Natural Social à qual uma ilustração vigorosa dá todo o mérito da iconografia.

CARÁTERES GERAIS - O principal caráter destes dois gêneros é não ter nenhum caráter. Os indivíduos que pertencem ao Subgênero do Publicista de carteira (faça como o governo, olhe mais para baixo), que deveriam ter um caráter qualquer, não têm como oferecer a menor aparência; por que então eles não se enquadrariam essencialmente dentro das condições da política francesa, que escapa a todas as definições, e se entrega à filosofia através de contínuas ausências de sentido. Pode-se perceber, porém, alguns indivíduos que, escrevendo sempre a mesma coisa, repetindo o mesmo artigo - por impossibilidade, aliás, de encontrar um outro -, passam por ter caráter; mas são evidentemente uns maníacos cuja loucura sem perigo insensibiliza o assinante-confiante e alegra o assinante-espírito forte. Se os estrangeros se admiram com este defeito, eles devem ter em conta o espírito nacional que exige uma mobilidade tão grande entre os Homens quanto nas Instituições. O público, na França, acha aborrecidas as pessoas com convicções, e acusa as pessoas com mobilidade de não terem caráter. Este dilema, perpetuamente dirigido contra os indivíduos destes dois Gêneros, torna sua posição extremamente crítica. Quando um escritor espirituoso vai, como uma mosca lasciva, de jornal em jornal, que seja alternadamente monarquista, ministerial, liberal, reministerial, e continue a escrever secretamente em todos os jornais, vai-se dizer dele: 'É um homem sem consistência!' Quando um escritor se faz de marido enganado liberal, marido enganado humanitário, marido enganado de oposição, e não varia seu tema, diz-se dele: 'É um homem tedioso.' Assim, o indivíduo mais espiritual é o Nadólogo e o Escritor monobíblia. Estas duas Variedades evitam os perigos do dilema tornando-se ilegíveis. (Olhe como o governo, cada vez mais para baixo.)
Em relação ao aspecto físico, estes indivíduos em geral não têm beleza, apesar de encomendarem para si próprios imagens de bustos notáveis com a ajuda da litografia, gesso, estatuetas e falsos topetes. Quase todos são destituídos desta polidez que os escritores do século XVIII deviam a seu comércio com os salões onde eram festejados. Eles vivem isolados, separados por suas pretensões, e se conhecem pouco entre si, tanto eles têm medo de ter más consciências. Esta vida solitária não impede todos os indivíduos de exercerem sua inveja em relação à posição, ao talento, à fortuna e às vantagens pessoais de seus confrades, de forma que sua feroz mania de igualdade vem precisamente do fato de que eles reconhecem entre eles as mais contundentes desigualdades." (continua...)

* Na imagem: O nascimento de Vênus - Sandro Botticelli.

terça-feira, novembro 20, 2007

Vai acabar!

Ainda poderemos ver a final da Copa de 2014 mas depois disso não restará muito tempo: o mundo vai acabar mesmo. É a tese do professor James Lovelock (88) em entrevista a Jeff Goodell na Rolling Stone. Clique aqui para ler . Abaixo uma amostra:

Aquecimento global é inevitável e 6 bi morrerão, diz cientista
Por Jeff Goodell
James Lovelock, renomado cientista, diz que o aquecimento global é irreversível – e que mais de 6 bilhões de pessoas vão morrer neste século
Aos 88 anos, depois de quatro filhos e uma carreira longa e respeitada como um dos cientistas mais influentes do século 20, James Lovelock chegou a uma conclusão desconcertante: a raça humana está condenada. “Gostaria de ser mais esperançoso”, ele me diz em uma manhã ensolarada enquanto caminhamos em um parque em Oslo (Noruega), onde o estudioso fará uma palestra em uma universidade. Lovelock é baixinho, invariavelmente educado, com cabelo branco e óculos redondos que lhe dão ares de coruja. Seus passos são gingados; sua mente, vívida; seus modos, tudo menos pessimistas. Aliás, a chegada dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse – guerra, fome, pestilência e morte – parece deixá-lo animado. “Será uma época sombria”, reconhece. “Mas, para quem sobreviver, desconfio que vá ser bem emocionante.”
Na visão de Lovelock, até 2020, secas e outros extremos climáticos serão lugar-comum. Até 2040, o Saara vai invadir a Europa, e Berlim será tão quente quanto Bagdá. Atlanta acabará se transformando em uma selva de trepadeiras kudzu. Phoenix se tornará um lugar inabitável, assim como partes de Beijing (deserto), Miami (elevação do nível do mar) e Londres (enchentes). A falta de alimentos fará com que milhões de pessoas se dirijam para o norte, elevando as tensões políticas. “Os chineses não terão para onde ir além da Sibéria”, sentencia Lovelock. “O que os russos vão achar disso? Sinto que uma guerra entre a Rússia e a China seja inevitável.” Com as dificuldades de sobrevivência e as migrações em massa, virão as epidemias. Até 2100, a população da Terra encolherá dos atuais 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões, sendo que a maior parte dos sobreviventes habitará altas latitudes – Canadá, Islândia, Escandinávia, Bacia Ártica.Até o final do século, segundo o cientista, o aquecimento global fará com que zonas de temperatura como a América do Norte e a Europa se aqueçam quase 8 graus Celsius – quase o dobro das previsões mais prováveis do relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, a organização sancionada pela ONU que inclui os principais cientistas do mundo. “Nosso futuro”, Lovelock escreveu, “é como o dos passageiros em um barquinho de passeio navegando tranqüilamente sobre as cataratas do Niagara, sem saber que os motores em breve sofrerão pane”. E trocar as lâmpadas de casa por aquelas que economizam energia não vai nos salvar. Para Lovelock, diminuir a poluição dos gases responsáveis pelo efeito estufa não vai fazer muita diferença a esta altura, e boa parte do que é considerado desenvolvimento sustentável não passa de um truque para tirar proveito do desastre. “Verde”, ele me diz, só meio de piada, “é a cor do mofo e da corrupção.”
Se tais previsões saíssem da boca de qualquer outra pessoa, daria para rir delas como se fossem devaneios. Mas não é tão fácil assim descartar as idéias de Lovelock. Na posição de inventor, ele criou um aparelho que ajudou a detectar o buraco crescente na camada de ozônio e que deu início ao movimento ambientalista da década de 1970. E, na posição de cientista, apresentou a teoria revolucionária conhecida como Gaia – a idéia de que nosso planeta é um superorganismo que, de certa maneira, está “vivo”. Essa visão hoje serve como base a praticamente toda a ciência climática. Lynn Margulis, bióloga pioneira na Universidade de Massachusetts (Estados Unidos), diz que ele é “uma das mentes científicas mais inovadoras e rebeldes da atualidade”. Richard Branson, empresário britânico, afirma que Lovelock o inspirou a gastar bilhões de dólares para lutar contra o aquecimento global. “Jim é um cientista brilhante que já esteve certo a respeito de muitas coisas no passado”, diz Branson. E completa: “Se ele se sente pessimista a respeito do futuro, é importante para a humanidade prestar atenção.”Lovelock sabe que prever o fim da civilização não é uma ciência exata. “Posso estar errado a respeito de tudoisso”, ele admite.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Eremildo - o idiota



Aproveito a oportudidade aberta com a publicação de parte da coluna do jornalista Elio Gaspari no CIVITATES* para divulgar a minha mais recente descoberta literário-jornalistica: a origem do Eremildo, o idiota.
Os leitores de Elio Gaspari conhecem bem esse personagem que marcou presença na coluna do jornalista durante a década de 90. Até hoje não se sabe se há algum parentesco entre Eremildo e a Velhinha de Taubaté, muito embora os dois comunguem da mesma conciência ingênua que os leva a acreditar em tudo o que os governantes dizem.
Por ora posso afirmar que Eremildo, ou melhor, a sua ilustração, tem origem distante, muito distante dos dias atuais. Mais precisamente, podemos encontrá-la na edição das obras de François Rabelais, publicada por Joseph Bry em 1854. A ilustração ficou ao cargo de Paul Gustave Doré.
No livro de Rebelais, Gargântua e Pantagruel (1532 - reedição 2003), não há nenhuma referência a Eremildo. O capítulo no qual encontramos sua imagem tem por título: Porque os monges fugiram do mundo, e porque uns têm o nariz maior do que os outros.
Cito uma das partes do capítulo e deixo a outra para estimular aos curisosos que comprem ou emprestem o livro (a propósito, imperdível!):
"Por que será que Frei Jean tem um nariz tão bonito? disse Gargântua - Porque Deus assim quis, respondeu Grandgousier: o qual nos faz de tal forma e para tal fim segundo o seu divino arbítrio, do mesmo modo que um oleiro faz os seus potes. - Porque, disse Ponocrates, ele foi um dos primeiros a ir à feira dos narizes. Escolheu os mais bonitos e maiores. - Ora, disse o monge, segundo a verdadeira filosofia monástica, foi porque a minha ama tinha tetas moles, e, quando eu mamava, o meu nariz se afundava nelas como em manteiga, e lá crescia como a uva esmagada cresce no lagar. As tetas duras das amas fazem meninos ter nariz chato. Mas vamos, vamos, ad formam nasi cognoscitur ad te levari. Não gosto de confeitos. Pajem, aos assados!"
Eremildo é uma invenção de Elio Gaspari inspirada em Rebelais? Em certa medida sim, pois a comédia é o estilo eleito por ambos. Todavia Rebelais apresenta uma releitura das lendas e anedotas medievais e seus gigantes Gargântua e Pantagruel, na qual faz constantes ataques aos escolásticos da Sorbonne. Os gigantes ridicularizam o ambiente que lhes circunda. Já em Gaspari, Eremildo é quem é ridicularizado pelo ambiente que o circunda.

* quando ele souber desta honraria, tenho certeza que comunicará Madame Natasha para que averigüe o estilo primoroso com o qual brindamos nossos leitores.

sexta-feira, agosto 17, 2007

O ovo podre da serpente



Um blogueiro do Acre está sendo processado por ter publicado uma foto do perfil do orkut de uma pessoa que se denominava Maromba Júnior (MJ).

A imagem em questão mostra o MJ montado na estátua do poeta acreano Juvenal Antunes. Outras estátuas como essa existem em várias cidades do mundo: Fernando Pessoa (Lisboa), Carlos Drumond de Andrade (Copacabana, Rio - clique aqui para ver outras no Rio.).

A questão parece bastante controvertida, pois o judiciário e o ministério público acreano não mediram esforços para punir o blogueiro (clique aqui), tendo em vista que MJ burlou as regras do orkut (o site exige que os participantes sejam maiores de 18 anos de idade) e lá publicou suas aventuras adolescentes para cerca de 67 milhões de assintes do site de relacionamento global.

Pelo que se sabe, até o momento, as autoridades forenses não trataram dos atos praticados pelo adolescente. Por que será?

Outras atitudes como essa já foram objeto de debate em blogs e várias imagens foram disponibilizadas no youtube (clique aqui para ver os ovos de ipanema).

O atual Presidente de Philips no Brasil também deu a sua contribuição "oval" ao declarar em uma entrevista ao Jornal Valor Econômico que: "não se pode pensar que o país é um Piauí" e que "se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado" (clique aqui para saber mais).

Qualquer um de nós já aprontou as suas, seja na infância, na adolescência, ou mesmo na "adultescência". Agora, não é a irresponsabilidade de alguns momentos que torna a conduta irresponsável legítima. E o espaço privado não pode ser confundido com o espaço público.

O que há em comum entre essas manifestações é o odor, podre e fétido, de condutas que ao serem publicizadas não podem passar imunes à crítica e à reprovação, sob pena de um dia o ovo podre se tornar serpente.

sábado, agosto 11, 2007


Um excelente site para quem quer ler a crítica da mídia: http://viomundo.globo.com/ , do jornalista Luiz Carlos Azenha.

Azenha rodou o mundo e tem muitas histórias pra contar.

Depois do segundo turno das eleições presidenciais de 2006 - e da tentativa de golpe midiático das grandes da televisão, da rádio e do jornal - saiu da Globo.

Reproduzo abaixo um artigo publicado por ele em julho.




FHC, o invejoso, vai surtar com os novos números da economia

FHC ressuscitou.
Está em todas.
Nunca um ex-presidente foi tão citado pela mídia.
A mídia golpista adora o FHC.
Teriam sido as "negociatas" da privataria?
A base de Alcântara, que FHC queria "entregar" aos americanos?
Ou teria sido o ministro da Justiça de FHC, um certo Renan Calheiros?
FHC palpita sobre tudo, mas nenhum repórter tem coragem de perguntar a ele quem é que pagou as contas do filho do senador com a jornalista da Globo.
Se não foi o próprio FHC, quem foi?
E o que recebeu em troca?
Eu juro para vocês: se eu encontrar o FHC na rua ou em algum evento público eu vou fazer essa pergunta.
Não devemos admitir a hipocrisia: se o Lula teve de responder e o Renan Calheiros também, devemos poupar FHC?
Devemos poupar as crianças, que não têm nada com isso.
Digo, antes de prosseguir, que o fato de que Lula desperdiça sua taxa de aprovação apoiando Renan Calheiros é nojento.
Nada justifica isso, nem a tal "governabilidade".
Renan, ACM, Sarney, Roriz - essa gente deveria ser enterrada.
É o atraso do atraso do atraso do atraso.
Pior que a elite brasileira, que é apenas o atraso do atraso do atraso.
O problema do Lula é que ele tem medo.
O sonho de Lula é ser o FHC.
E o sonho do FHC é ser tão popular quanto o Lula.
À revista Economist, que o considera presidente-em-exercício, FHC papagaiou um bordão que deve ter sido produzido no mesmo laboratório de onde saiu o Pan do Brasil.
Alguma coisa do gênero: chega de fazer comparações com o passado, devemos fazer comparações com os nossos competidores.É óbvio que FHC não quer mais comparações com o passado.
O governo Lula dá de dez a zero em todos os sentidos, inclusive no número de CPIs instaladas e em atividade, no combate à corrupção, na defesa dos interesses nacionais, na economia, na distribuição de renda e por aí afora.
FHC comprou a sua reeleição e a mídia abafou o escândalo.
O problema do sociólogo é que a comparação do Brasil com os competidores é favorável... ao Brasil.
Se você isolar o número do PIB - que é o que fazem os puxa-sacos de FHC -, o Brasil sai perdendo.
Mas você gostaria de morar na China, país de partido único, sem democracia, com a imprensa amordaçada, problemas gravíssimos no meio ambiente, falta de terras, de água e 200 milhões de camponeses miseráveis que detonam o seu salário?
E na Índia, em pé de guerra com um vizinho, com graves problemas entre hindus e muçulmanos, terrorismo, fome, falta de água e a divisão da sociedade em castas?
E na Rússia, com um regime autocrático, em guerra com uma de suas províncias, "cercada" pelos americanos, com centenas de mísseis nucleares apontados em sua direção?
Dos BRICs o Brasil é a melhor opção para os investidores estrangeiros.Ou é por acaso que está chovendo dinheiro no Brasil?
Que o dólar só faz despencar?
O Brasil oferece uma plataforma razoavelmente segura para investimentos, sem comoções internas, com ótimas perspectivas de crescimento, terra e água à vontade e um monte de brasileiros dentro.
É o lugar ideal para se instalar e disputar um mercado em crescimento, o da América Latina.
Sim, temos um gravíssimo problema de violência, uma guerra civil não declarada por causa de uma distribuição de renda criminosa.
Mas o governo que está no poder está enfrentando o problema, com resultados visíveis.
Em que país do mundo as vendas pela internet têm aumento de 49% em relação aos primeiros seis meses do ano anterior?
Eu não vou ficar aqui desfiando todos os números da economia.
Faça isso você mesmo e vai ver que o governo Lula, ainda que enrolado com todo tipo de trapaceiro, dá de dez a zero no de FHC.
Se o Lula ousasse um pouquinho mais e usasse a autoridade que tem com mais de 60 por cento de aprovação popular poderia passar feito um rolo compressor sobre FHC e sua turma... politicamente.
Mas o Lula é de negociar, busca sempre o consenso, o que dá a impressão de paralisia.
O Lula é melhor presidente e melhor político que FHC.
E eu imagino o quanto deva doer, num professor da Sorbonne oriundo da aristocracia paulistana, o fato de perder para um nordestino que se formou no SENAI.
Publicado em 3 de julho de 2007