terça-feira, outubro 23, 2007

Ainda "Tropa de Elite"

E já que é o assunto do momento, mais um artigo, este do Marcos Rolim (http://www.rolim.com.br/), sobre o filme:

“Tropa de Elite” é um grande filme que, a par de suas virtudes, carrega uma equação não resolvida que ameaça devorá-lo. Assisti-lo é como estar diante de um pesadelo que se sabe verdadeiro. Tudo nele é real, com o detalhe de que o real de que ele é feito é absurdo. Assim, temos uma polícia corrupta e sócia maior do crime; policiais que vendem armas aos traficantes que, logo adiante, serão empregadas para matar policiais; que transportam cadáveres de uma área para outra, para que o comando possa apresentar um “relatório melhor”; que cobram propina dos subordinados para conceder-lhes férias, entre tantas outras práticas delituosas. Então, de absurdo em absurdo, vida e morte nos são apresentadas da maneira como tantas delas se constituem nesta época: como sombras desprovidas de sentido ou razão.
Dois personagens surgem na tela com maior densidade. O “Capitão Nascimento” (Wagner Moura) e seu colega, o “aspirante Matias” (André Ramiro). Ambos são policiais honestos e integram o BOPE. Nascimento é um facínora que mata e tortura. É ele o narrador. Na visão alienada na qual está imerso, "policial de verdade" não pode ser estudante e sua opção digna é a “guerra”. Os demais, “ou se omitem ou se vendem”. Mas Nascimento vai ser pai e sua vida familiar se deteriora; ele vacila, quer largar a farda, toma remédios e procura uma psiquiatra (sem, entretanto, conseguir falar). O que há de mais humano nele, de qualquer forma, se despede. Ele próprio já é um discurso para revestir a exaustão e a covardia. Entre a humanidade e a caveira, Nascimento tem uma opção e ela cabe dentro do saco com o qual tortura suas vítimas. Matias é, neste particular, mais interessante. Quer se formar em direito e é um policial vocacionado à ciência. Nele, não há cinismo, mas solidariedade e paciência. No decorrer da ação, entretanto, Matias irá suceder Nascimento, adquirindo suas características violentas. O percurso de Matias é o da razão em direção à barbárie; do homem virtuoso ao assassino. Um percurso que não é exatamente “dele”, mas das suas circunstâncias e da sua instituição. Com ele, o absurdo se fecha e se renova absurdamente.
O que ocorre é que parte do público que assiste “Tropa de Elite” não vê este filme. Impregnados por valores violentos, muitos “aderem” ao discurso do narrador. Na pré-estréia em Porto Alegre, algumas pessoas riram durante as cenas de tortura e, por certo, parte do público gostaria que tivéssemos um BOPE na cidade (sem sequer se perguntar sobre os resultados colhidos pelos “caveiras” cariocas após anos de execuções em favelas). Bem, o filme não criou este público e não pode ser culpado pelo fato do Brasil possuir pouco mais de 30% de retardados morais que apóiam a tortura (Ver "A Cabeça do Brasileiro" de Carlos Alberto Almeida, Record, 2007) Mas não me parece um acidente o fato do filme permitir uma “leitura autoritária”. Talvez, o ponto central seja a humanidade dos demais personagens – policiais convencionais, estudantes e traficantes. Para o narrador, eles são apenas “inimigos” – está claro. O problema é que o filme os mostra assim, o que os transforma em pouco mais que caricaturas. Nesta equação mal resolvida, “Tropa de Elite” não criou os “antídotos” presentes, por exemplo, em “Notícias de uma Guerra Particular”; o extraordinário documentário que, a rigor, está no início de toda a história. Vendo o filme, me lembrei da inscrição "El sueño de la razón produce monstruos", da famosa tela de Goya. Nada mais verdadeiro. Resta saber se “Tropa de Elite” irá contribuir para nosso despertar ou para nosso sono.
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