domingo, maio 04, 2008

Os Jornalistas - Primeiro Gênero: O Publicista




Capítulo 2 da série Os Jornalistas:

"O Publicista

Oito subgêneros

A. O JORNALISTA;
B. O HOMEM DE ESTADO;
C. O PANFLETÁRIO;
D. O NADÓLOGO;
E. O PUBLICISTA DE CARTEIRA;
F. O ESCRITOR MONOBÍBLIA;
G. O TRADUTOR;
H. O AUTOR COM CONVICÇÕES.

Publicista, este nome outrora atribuído aos grandes escritores como Grotius, Puffendorf, Bodin, Montesquieu, Blakstone, Bentham, Mably, Savary, Smith, Rousseau, tornou-se o de todos os escrivinhadores que fazem política. De generalizador sublime, de profeta, de pastor das idéias que era outrora, o Publicista é agora um homem ocupado com os compassos flutuantes da Atualidade. Se alguma espinha aparece na superfície do corpo político, o Publicista a coça, a desdobra, a faz sangrar e tira dela um livro que, quase sempre, é uma mistificação. O publicismo era um grande espelho concêntrico: os publicistas de hoje o quebraram e têm todos um pedaço que eles fazem brilhar aos olhos da multidão. Estes diferentes pedaços aqui estão:

A. O JORNALISTA

Cinco Variedades:
1a. - o Diretor-redator-em-chefe-proprietário-gerente;
2a. - o Tenor;
3a. - o Fabricante de artigos de fundo;
4a. - o Mestre-Jacques;
5o. - os Camarilhistas.


Primeira Variedade

O Diretor-redator-em-chefe-proprietário-gerente

Esta bela espécie é o marquês de Tuffière do jornalismo [pessoa orgulhosa, arrogante]. Publicista por aquilo que não escreve, como os outros são publicistas por aquilo que escrevem demais, este indivíduo, que oferece sempre uma das quatro faces de seu título quádruplo, tem algo do proprietário, do dono de mercearia, do especulador, e, como ele não é conveveniente para nada, acba sendo conveniente para tudo. Os redatores transformam este proprietário ambicioso em um homem enorme que quer ser e se torna às vezes perfeito, conselheiro de Estado, recebedor-geral, diretor de teatro, quando não tem o bom senso de continuar a ser o que é: o porteiro da glória, a trombeta da especulação e o Bonneau do eleitorado [conselheiro]. Ele faz os artigos passarem à vontade, ou os deixa resfriar sobre o mármore da tipografia. Pode empurrar um livro, um caso, um homem, e pode às vezes arruinar o homem, o caso, o livro, segundo as circunstâncias. Este Bertrand de todos os Ratons do jornal se dá com a alma da folha, e necessariamente todo Gabinete trata com ele. Daí sua importância. De tanto conversar com os redatores, agita as suas idéias, tem o ar de quem tem grandes visões e se coloca como um verdadeiro personagem. É ou um homem forte ou um homem hábil que se faz representar por uma dançarina, por uma atriz ou uma cantora, algumas vezes por sua mulher legítima, a verdadeira potência oculta do Jornal.

Axioma

Todas as folhas públicas têm por leme uma saia de baixo em crinolina, absolutamente como na antiga monarquia.


Só houve (ele morreu) um diretor de jornal, na verdadeira acepção desta palavra. Este homem era sábio, tinha uma personalidade forte, tinha genialidade; assim jamais escrevia coisa alguma. Os redatores vinham até ele, todas as manhãs, escutar a orientação dos artigos a serem escritos. Este personagem não tinha ambição: ele fez pares, ministros, acadêmicos, professores, embaixadores e uma dinastia, sem jamais querer algo para si próprio; ele recusou a visita de um rei, tudo, até a cruz da Legião de Honra. Ancião, ele era apaixonado; jornalista, nem sempre in petto tinha a mesma opinião do seu jornal. Todos os jornais de hoje em dia colocados juntos, proprietários e redatores não são nada perto desta personalidade.
Instrução e conhecimentos à parte, não basta apenas uma centena de milhares de francos e uma garantia para se tornar Diretor-redator-em-chefe-proprietário-gerente de um jornal: são necessárias ainda circunstâncias, uma vontade brutal e uma espécie de capacidade teatral que, com freqüência, as pessoas de verdadeiro talento não têm. Assim, vê-se em Paris muitas pessoas que sobrevivem ao seu poder expirado. O Jornal tem seus Fernán [Fernand, no original] Cortez infelizes, como a Bolsa tem seus ex-milionários. O insucesso, se devendo às tentativas, explica o número assustador de máscaras tristes que os parisienses mostram aos observadores que os estudam passeando pelos bulevares. Desde 1830, não houve menos de cinqüenta jornais mortos sob a ambição pública, o que representa aproximadamente perto de dez milhões de capitais devorados. Nós vimos, nós vemos ainda jornais se estabelecendo em Paris com o pensamento de arruinar os jornais antigos fazendo um jornal inferior em todos os pontos em relação àquele que eles desejam derrubar. O ex-Diretor-redator-em-chefe-proprietário-gerente de jornal não é mais um homem, nem uma coisa, é a sombra desprezada de um feto de ambição.
Há três tipos de proprietários-diretores-redatores-em-chefe do Jornal: o ambicioso, o homem de negócios, o puro-sangue.
O ambicioso empreende um jornal seja para defender um sistema político cujo triunfo o interessa, seja para se tornar um homem político fazendo-se temer. O homem de negócios vê em um jornal uma aplicação de capitais cujos juros lhe são pagos em influência, em prazeres e algumas vezes em dinheiro. O puro-sangue é um homem no qual a gerência é uma vocação, que compreende esta dominação, que tem prazer na exploração das inteligências, sem abandonar, porém, os lucros do jornal. Os dois outros fazem de sua folha um meio; enquanto que, para o puro-sangue, sua folha é sua fortuna, sua casa, seu prazer, sua dominação: os outros se tornam personagens, o puro-sangue vive e morre jornalista.
Os proprietários-redatores-em-chefe-diretores-gerentes de jornais são ávidos e rotineiros. Parecidos, eles e suas folhas, ao governo que atacam, têm medo de inovações e perecem com freqüência por não saber fazer os gastos necessários e em harmonia com o progresso das luzes.

Axioma

Todo jornal que não aumenta sua massa de assinantes, seja ela qual for, está em decrescimento.


Um jornal, para ter uma longa existência, deve ser uma reunião de homens de talento, ele deve fazer escola. Infelizes os jornais que se apóiam em apenas um talento!
Na maior parte do tempo, o diretor fica com ciúmes das pessoas de talento que lhe são necessárias, cerca-se então de pessoas medíocres que o bajulam e lhe fazem seu jornal bem barato. Morre-se sempre sendo o jornal mais bem-feito de Paris."

(continua)

* a imagem: Le Pont-Neuf (Camile Pissarro, 1902)

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