segunda-feira, abril 02, 2007

Big Brother e a alegre relação das pessoas com o nada

Reproduzo abaixo, pela pertinência e por bem escrito, crônica de Marcos Rolim sobre o BBB tupiniquim ( clique aqui ). Afinal, o Big Brother, assim como o PFL (agora DEMo), é Brasil (prá quem lembra da mais sincera propaganda de TV que o PFL já fez). Importado, como o DEMo, mas é Brasil.


EFEITO MEDUSA
30 de março de 2007
Na mitologia grega, Medusa está entre os seres mais assustadores. Única mortal entre as três Górgonas, seus cabelos eram serpentes venenosas e seu olhar transformava qualquer um em pedra. Ela representava a própria infelicidade e seus filhos eram monstros. Um olhar que paralisava pelo fascínio e que subtraía a vida, esta a essência da figura terrível. Talvez o mito nos diga algo sobre a maior parte da programação das TVs brasileiras. Perdoem-me os fãs, mas os chamados “reality shows” são, neste particular, a mais perturbadora síntese do vazio contemporâneo. Tome-se o “Big Brother”, por exemplo, fenômeno mundial cujo sucesso desafia a razão. Não se pode dizer, simplesmente, que se trata de lixo cultural. Seria insuficiente, porque disso todos têm plena consciência, a começar pelos que asseguram a grande audiência do “programa”. O que intriga é, precisamente, o fato de boa parte da nação ser seduzida pela banalidade e relacionar-se alegremente com o nada. Vamos combinar, não tratamos de algo que diga respeito aos que sempre estiveram à margem do estudo. “BBB” é, também, programa prestigiado pelas classes médias e por seus filhos universitários.
Se a pornografia é, como o disse Sartre, a “inércia da carne”; ou seja, a exposição gratuita de protuberâncias e reentrâncias que se bastam, que existem sem movimento ou “espírito”, a ponto de não se permitir o reconhecimento do que há de especificamente humano na sexualidade, então “Big Brother” é a pornografia que superou a si mesmo, posto que a inércia aqui não é apenas a do corpo, mas a do pensamento. Nesta dialética da obscenidade, o vulgar desaparece e se confunde com o cotidiano, enquanto a razão instrumental, mero artifício para a derrota do outro, conforma o perfil dos “nossos heróis”, como não se cansa de dizer em certo Pedro Bial. Baudrillard tem toda a razão, estamos diante de um “crime perfeito”. Um delito praticado contra a cultura e os valores da solidariedade, perpetrado por aqueles cuja missão constitucional é a de “educar” a população – emancipá-la, portanto - mas que lhe oferecem, impunemente, a servidão. Crime sem vestígios, pois a servidão é escolhida e compartilhada a cada “paredão”, enquanto os donos do negócio enchem as burras.
Eis o conteúdo maior de nossa “democracia”, dirão alguns. O povo, afinal, escolhe o que deseja assistir. Ora, me poupem! Não é preciso retomar as teses de Frankfurt, nem vestir a túnica do iluminismo para chamar o ridículo por seu nome. Na base do ideal democrático, está o debate público, a disputa de idéias. Eis o que se pretende suprimir em nome da “democracia”, a ponto de mesmo a crítica dos meios de comunicação ser, desde logo, impugnada. Muito conveniente.
Diante da Medusa moderna, o fascínio conduz milhões ao impudor da superfície. Ali, na ante-sala do conceito, na distância animada da reflexão, a audiência se petrifica por dentro. O que ela descobre nos “diálogos” dos moradores da casa é que já não há diálogo, mas subterfúgios. O que vê na tela é a impotência e a perplexidade a que as pessoas foram reduzidas. A obscenidade de uma época inteira marcada pelas ambições mais deprimentes nos é servida e dela já não sentimos vergonha. Perseu se ausentou, ninguém mais sequer se recorda dele. E o pensamento, o escudo polido com o qual poderíamos refletir a imagem de Medusa, não encontra mais o braço capaz de erguê-lo.

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