quarta-feira, abril 25, 2007

Mr. Unger

Mr. Robert(o) Mangabeira Unger assume na próxima semana uma nova Secretaria no governo federal: a Secretaria Especial de Assuntos de Longo Prazo ou Ações a Longo Prazo (ou algo bem parecido com isso). A “responsabilidade” é do PRB (Partido Republicano Brasileiro), partido do Vice-Presidente José Alencar e que tem Mr. Unger como um dos “fundadores”.
A indicação de Robert(o) como Ministro (já que a secretaria tem status de ministério, seja lá o que isso signifique), mesmo que sirva como um afago a um partido da base aliada, parece causar mais desgaste do que benefícios. Mangabeira construiu uma imagem pública que alterna idéias polêmicas com uma atuação política praticamente indecifrável.
Foi candidato, quase-guru de candidato (Ciro Gomes) e emitiu opiniões nada simpáticas em relação ao governo federal e ao próprio Presidente Lula.
Apenas para lembrar, em um artigo publicado na imprensa nacional, Mangabeira Unger afirmou (em 15 de novembro de 2005, na Folha de São Paulo) que o Congresso teria obrigação de decretar o impedimento do presidente diante do que ele considerava o governo “mais corrupto da história do Brasil” e que Lula era “avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância [...]”. Para arrematar o artigo ainda utiliza a expressão “instituições republicanas”. É o fim dos tempos...
A repercussão da indicação não está sendo das melhores entre os petistas (vide as manifestações do Berzoini e Joaquim Soriano) que, além de “perderem” uma posição no primeiro escalão, não engolem aquele que foi um dos críticos mais ácidos do governo Lula.
Aliás, o sugestivo nome do artigo é “Pôr fim ao governo Lula”.
Quem sabe agora, como Ministro e responsável pelo IPEA, ele ajuda...

Leia a integra do artigo, publicado originalmente na edição de 15/11/2005 do jornal Folha de S. Paulo:
Pôr fim ao governo Lula
AFIRMO que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos.
Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas. Imiscuiu-se, e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem, em disputas e negócios privados. E comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos.
Afirmo que a aproximação do fim de seu mandato não é motivo para deixar de declarar o impedimento do presidente, dados a gravidade dos crimes de responsabilidade que ele cometeu e o perigo de que a repetição desses crimes contamine a eleição vindoura. Quem diz que só aos eleitores cabe julgar não compreende as premissas do presidencialismo e não leva a Constituição a sério.
Afirmo que descumpririam seu juramento constitucional e demonstrariam deslealdade para com a República os mandatários que, em nome de lealdade ao presidente, deixassem de exigir seu impedimento. No regime republicano a lealdade às leis se sobrepõe à lealdade aos homens.
Afirmo que o governo Lula fraudou a vontade dos brasileiros ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo. Ao transformar o Brasil no país continental em desenvolvimento que menos cresce, esse projeto impôs mediocridade aos que querem pujança.
Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.
Afirmo que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. Acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. As duas cabeças precisam ser esmagadas juntas.
Afirmo que as bases sociais do governo Lula são os rentistas, a quem se transferem os recursos pilhados do trabalho e da produção, e os desesperados, de quem se aproveitam, cruelmente, a subjugação econômica e a desinformação política. E que seu inimigo principal são as classes médias, de cuja capacidade para esclarecer a massa popular depende, mais do que nunca, o futuro da República.
Afirmo que a repetição perseverante dessas verdades em todo o país acabará por acender, nos corações dos brasileiros, uma chama que reduzirá a cinzas um sistema que hoje se julga intocável e perpétuo.
Afirmo que, nesse 15 de novembro, o dever de todos os cidadãos é negar o direito de presidir as comemorações da proclamação da República aos que corromperam e esvaziaram as instituições republicanas.
Artigo publicado na edição de 15/11/2005 do jornal Folha de S. Paulo

5 comentários:

Katacultura disse...

Lembro de ter assistido uma palestra do professor Mangabeira nesta época(2005) e de ficar espantado com a expressão"...o governo mais corrupto da história do Brasil".
Percebo, neste começo de segundo mandato, algumas posturas pessoais do presidente Lula( indicações do primeiro escalão, menosprezo ao PT, "aproximação" com setores do tucanato) que causam alguma preocupação. A gobernabilidade se constrói com apoios e alianças, mas existem limites. Questões importantes no governo estão sendo colocadas em segundo plano( vide uma possível perspectiva de mudança da atual política econômica) em nome da figura de Lula( ou da preparação para o Lula 2015?). Não questiono os méritos do governo( que são vários), mas faço esta provocação para evitar um clima "chapa branca".

Cláudio Ladeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
gerson sicca disse...

O Ladeira, como sempre, detona nos comentários. Ah, Geyson, é bom lembrar que agora a nova é tentar colocar o diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, na Presidência do IBAMA, pra "acelerar" as licenças ambientais, já que a proteção ao meio ambiente é a grande responsável pelo subdesenvolvimento histórico do Brasil...

Geyson Gonçalves disse...

Pois é,
E também tem o Geddel Vieira Lima... e o Paulo Lacerda (teje preso) no IBAMA(???). A boa gestão na PF significa o que? Que ele pode ser Ministro da Fazenda? Vai fazer o que no IBAMA? Mandar prender os ambientalistas e peritos que "atrapalham" as licenças ambientais e o "progresso"? E como diria o grande Ladeira, "é bullshit pura".

Cláudio Ladeira disse...

comentário inicialmente postado acima, e corrigido)
Os "argumentos" do artigo de Uhhmmnger, lidos com atenção, são ofensivos não apenas ao presidente da República mas principalmente a milhares de cidadãos. A maior parte do artigo é pura reciclagem academicista de panfletos jornalísticos da época. Não quero ofender os ancestrais de ninguém, mas um artigo de Diogo Mainardi pareceria mais "PhD". No entanto, o pior mesmo não é conferir uma lataria de civilidade e primor literário aos latidos udenistas de pfl/psdb (afinal, o artigo é uma referência ao "Eu Acuso" de Zola; o mesmo foi feito pelo senador comunista chileno Pablo Neruda nos anos 40. Chique, né? "Jê pefelê parlê francê"). Bestial, insuportavelmente oligárquico, é a idéia fascistóide de que cabe às "classes médias (...) mais do que nunca, o futuro da República" pois ela possui a "capacidade para esclarecer a massa popular". Uhhmmnger apenas passou um perfuminho "Harvard" no tradicional "povo-é-burro-não-sabe-votar". Em suma: décadas de estudo universitário e livros sobre política publicados para, regredindo à idade geológica do General Figueiredo nos anos 70, concluir que a redenção da raça humana virá quando a massa bovina e inculta escutar os trombones da seleta parcela da população leitora voraz de Veja. "Yes, we have republicans institutions, but not votos para vencer eleições!!"
Caro mr. Uhhrrmmnger, vosso blá, blá, blá (ou seria bhley, bhley, bhley) é bullshit pura.
Enfim, a nomeação é um mico impagável e um desrespeito a milhares