quarta-feira, maio 09, 2007

O inquisidor Ratzinger e o Frei Boff (parte I)



O avião do Vaticano já aterrissou em solo brasileiro.

Inicia-se a visita do Papa que durará até o dia 13 de maio.

Aproveito para reproduzir trechos da entrevista da revista Caros Amigos com o teólogo Leonardo Boff, em 1998.

Naquela ocasião Boff detalhou como foi o processo inquisitório que contou com a participação ativa do Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI.

"Sérgio Pinto - Lendo nos arquivos um pouco da sua trajetória, salta aos olhos a pressão, as sucessivas convocações ao Vaticano, os sucessivos esclarecimentos, questionamentos etc. Como foi esse processo de inquisição do qual você é vítima?Leonardo Boff - É um processo que talvez o Roberto Freire tenha mais condições de descrever. Porque é um processo que atinge a tua identidade mais profunda, não é só um processo doutrinário, é um processo de desmontagem da tua figura de teólogo, o efeito é que alguém que está sob interrogatório do Vaticano não pode ser convidado pela Igreja, pelas comunidades, pelos bispos, para dar palestras no retiro espiritual. É tolerado que ele dê aula, mas com grande vigilância sobre o que ele ensina. E ele recebe uma vigilância direta sobre as homilias que profere, porque já está sob suspeita. Como padre, tem o direito de celebrar missa e fazer a homilia, mas porque está em processo de ajuizamento ele perde toda a confiabilidade.

Sérgio Pinto - Não é uma desqualificação?

Leonardo Boff - Desqualificação. Isso vinha desde 1972, cada livro que eu publicava era objeto de análise do Santo Ofício. E você sente a vontade deles de condenar. Eu via isso como um paralelo dos nossos organismos de segurança. Se você vai nas malhas desses organismos, está perdido, porque sistematicamente, de forma burocrática, você é acompanhado. Começou em 1972 com o livro Jesus Cristo Libertador, e culminou em 1984 com Igreja, Carisma e Poder. Há toda uma longa história com cartas, idas e vindas, um diálogo extremamente penoso com o Vaticano, com o secretário do Santo Ofício, que depois também foi o grande inquisidor do processo.

Chico Vasconcellos - Como é o nome desse secretário?

Leonardo Boff - Ele morreu em 1996, era o cardeal Hamer, Jerome Hamer.

Sérgio de Souza - Você pode reproduzir esse diáologo?

Leonardo Boff - Foi dramático, só nós dois, eu e o cardeal Hamer, é difícil reproduzir com objetividade, porque foi uma vivência da coisa. Foi no grande salão do Santo Ofício, que deve ter pelo menos 150 metros de comprimento. Imenso salão, com tapetes enormes. Lá no fundo, num canto, uma cadeirinha, uma pequena mesa e eu sentado lá, esperando quarenta minutos pelo cardeal. Toda hora me diziam: "Está chegando". Vejo ele chegando de longe, todo paramentado de cardeal, com toda a pompa vermelha. Fiquei realmente amedrontado. Primeiro, quarenta minutos de espera, você sozinho, abandonado. Ele vem, senta e diz: "A tua igreja pediu um diálogo. Quem fala aqui é o responsável pela doutrina, não quero dialogar, só quero testar se a tua fé é verdadeira ou não. Primeiro, como referência: o que você acha do Vaticano II?" Eu disse: "O Vaticano II foi um extraordinário concílio pastoral". E ele: "Erro, não é pastoral, é doutrinário. Esse é o teu erro, considerar que esse concílio adaptou a Igreja ao mundo moderno, não adaptou nada! Ele tem de ser lido na óptica do Vaticano I, como doutrina, e você não faz isso". Aí puxa uma pasta com todas as minhas cartas. "Na carta tal, você diz isto, pior, você subscreve" – porque eu sempre subscrevi, com um certo humor franciscano, frater teologus minor et pecator (irmão, teólogo menor e pecador). "Você escreve isto, você é pecador mesmo?" Eu respondo: "Está escrito, admiro que o senhor não se considere um pecador". E ele: "Eu sou autoridade, não cabe a mim apresentar-me como um pecador". Digo: "O senhor é um cristão". Lembrei o famoso sonho de São Jerônimo, em que ele aparece no Céu e Deus lhe pergunta: "Quem é você?" Jerônimo diz: "Teologus sum traductor sum" – sou teólogo, sou tradutor da Bíblia. E Deus: "Não, não conheço". Até que Jerônimo acerta: "Cristianus sum". Então, Deus lhe diz: "Sim, cristianus sum pecator sum". E aí Deus o acolhe. Perguntei ao cardeal: "O senhor esqueceu o sonho de São Jerônimo?" Pois ele respondeu dizendo: "Eu estive no Brasil, conheço o teu país, e vocês cometem um erro fundamental que é pensar a partir da prática. Isso não existe, isso fazem os marxistas, não os cristãos. Os cristãos pensam a partir da tradição, a partir do magistério da Igreja, a partir dos documentos oficiais. E vocês tentam dialogar com a ciência a partir da realidade. Então, vocês não fazem teologia, vocês são menores, não têm seriedade no discurso". Eu: "Bom, se não tenho seriedade, por que o senhor me chama aqui, por que questiona os meus textos?" Até o ponto em que ele diz: "Eu conheço o Brasil, aquilo que vocês fazem nas comunidades eclesiais de base não é verdade, o Brasil não tem a pobreza que vocês imaginam, isso é a construção da leitura sociológica, ideológica, que a vertente marxista faz. Vocês estão transformando as comunidades eclesiais de base em células marxistas, que, mais do que rezar e militar a palavra de Deus, aprendem a guerrilha. Por isso, vocês, quando começam a conversar, dizem: ‘Como vai a luta?’ Está vendo? A luta. E, para nós, isso quer dizer como vai a vida, não é?"

Sérgio Pinto - Em que ano foi isso?

Leonardo Boff - Foi em 1989. Chegou a um ponto que comecei a chorar de tanta raiva. E ele disse: "E mostra a tua fragilidade! Porque você chora como uma criança!" Fiquei com tanta raiva que fechei o punho: "Vou matar o cardeal". E comecei a mirar onde ia acertar... "Vou matá-lo." Fiquei lutando contra mim mesmo, por uns cinco minutos, fechado, pensando: "Quero matar esse homem, porque é isso que ele merece". Então lhe disse: "Olha, padre, acho que o senhor é pior que um ateu, porque um ateu pelo menos crê no ser humano, o senhor não crê no ser humano. O senhor é cínico, o senhor ri das lágrimas de uma pessoa. Então não quero mais falar com o senhor, porque eu falo com cristãos, não com ateus". Aí ele parou e disse: "Então vamos falar de outras coisas. Sou cardeal aqui dentro, e o cardeal mais odiado do mundo, lido com os que entram, com os que devem sair, nomeio os teólogos, todos os bispos que vêm aqui defendem os teólogos, tenho de me explicar. Aos domingos vou comer com os dominicanos" – ele era dominicano –, "ninguém conversa comigo". Morreu de câncer. E teve uma surpresa imensa, porque ele estava morrendo, eu estava de passagem por Roma e telefonei: "Aqui é o Boff, aquele que o senhor condenou". E ele: "Ninguém me telefona... foi preciso você me telefonar! Me sinto isolado. Queria ser um grande teólogo e não consegui. Me fizeram logo bispo, me chamaram pra cá, não tenho comunidade, celebro sozinho de manhã e me sinto desprezado pelos meus irmãos dominicanos". Aí começou a chorar. Não perdoei: "Quem é o fraco agora? Mas não quero fazer o que fez comigo! Quero enxugar as suas lágrimas". E ele: "Boff, vamos ficar amigos, conheço umas pizzarias aqui perto do Vaticano...". (risos)

[...]

Leonardo Boff - "... Quando você vier pra cá, me telefone, vamos tirar essas roupas, vamos conversar, tomar um vinho." Chorava como uma criança."

(continua amanhã)

Um comentário:

Gustavo Pedrollo disse...

Como, continua amanhã? Isso é técnica para prender a audiência, De Gordoli???

Sacanagem...