sexta-feira, novembro 30, 2007

Capitães do mato

Por Marcos Rolim (link aqui)
Nos processos de Nuremberg, Goering se referiu à idéia de Direitos Humanos com a expressão “valores humanitários afeminados”. O juízo diz muito sobre o nazismo. O que o oficial alemão queria dizer é que o humanismo é uma “fraqueza”, coisa para “mulherzinhas” (aquelas que, segundo as tradições germânicas, deviam cuidar “da cozinha, da igreja e das crianças”), não para homens dispostos a morrer por seu país e que tinham o desafio de um Reich para “mil anos”. É provável que a experiência da 2º guerra tenha permitido a uma Europa assombrada pelos campos de concentração que a idéia dos Direitos Humanos terminasse sendo percebida como sinônimo de “civilização”. Da tragédia, então, soube-se retirar lições que conformaram garantias, liberdades e, sobretudo, a necessária sensibilidade para valorizar a diferença e a democracia.
No Brasil, a idéia de Goering sobre os Direitos Humanos foi vitoriosa, sem que para isso tenha sido preciso um Reich. Apesar das garantias constitucionais e de todas as conquistas legais, há um senso comum e uma insensibilidade no interior daquilo que poderíamos chamar de “brasilidade” que mantém com o nazismo uma “afinidade eletiva”. Em outras palavras, somos todos formados em uma tradição cultural que inclui - entre outras vertentes, por óbvio - uma forte componente anti-humanista. Se a cultura conforma nossas disposições mais fundas; se dentro de cada um, há uma história muito longa onde o passado é presente; se carregamos inconscientemente muitos “personagens” arquetípicos que, de repente, nos “visitam”; se “habitus”, como propôs Bourdieu, é essa “intencionalidade sem intenção”, então seria preciso identificar o capitão do mato que nos antecede para esconjurá-lo.
Porque ainda não o fizemos, uma menina (acusada por furto) foi alojada em uma cela com 20 presos, sendo submetida a estupros sucessivos em troca de comida no Pará e o Delegado (que se pressupõe formado em direito) disse que “se ela tivesse declarado ser menor o procedimento seria outro”. Ou seja, tratou-se de um “erro de tipo” e, se ela fosse maior de idade, então não haveria problema em colocá-la ali. Porque ainda não identificamos o capitão do mato que se embretou em nós, há gente colocando adesivos do BOPE nos seus automóveis. Nos últimos 4 anos, a polícia do Rio matou 4.329 pessoas – quase todos miseráveis, muito jovens, negros e pardos. É esse “modelo” que a turma gostaria de ver em todo o país. Se colocassem nos carros um adesivo com um tronco e uma chibata daria no mesmo. Pelo mesmo motivo, um leitor escreveu para Rosane Oliveira manifestando estranheza porque os presos pela Polícia Federal no último escândalo não foram fotografados algemados. Uau! Não importa que as algemas sejam um recurso técnico a ser empregado apenas e tão-somente quando há risco de fuga ou reação do suspeito. Algemar, no anti-humanismo onde estamos mergulhados, é uma forma de punir pela humilhação; então como é que não humilharam as pessoas desta vez? Queremos humilhação, ora; adoramos o espetáculo. Presunção de inocência? Respeito pelas pessoas, sejam ricas ou pobres? “Coisa de veado”, nos assopra Goering.

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