segunda-feira, abril 21, 2008

"Os Jornalistas" - uma série



"A Imprensa, como a mulher, é admirável e sublime quando conta uma mentira. Não o deixa em paz até tê-lo forçado a acreditar nela, e emprega as melhores qualidades nesta luta onde o público, tão tolo quanto um marido, sucumbe sempre"
Balzac



A idéia de publicar esta série surgiu antes do caso Isabella e a exploração midiática da tragédia acontecida em São Paulo.
Por acaso vi o livro "Os Jornalistas" na estante de uma biblioteca e ao folheá-lo me interessou bastante o estilo utilizado por Honoré de Balzac para tratar do papel da imprensa nos nossos dias.
Vou apresentá-lo em capítulos, nem sempre seguindo a ordem do livro. Mas sempre fiel ao conteúdo e à tradução. Todavia, não poderei publicar as notas do Editor, do tradutor e do autor.


" Monografia da Imprensa Parisiense AVISO AOS FALSIFICADORES A ordem GENDELETTRE (como Gendarme) tendo se constituído em sociedade para defender suas propriedades, era normal que acontecesse aquilo que acontece na França com muitas instituições, uma antítese entre o objetivo e os resultados: as propriedades literárias são mais pilhadas do que nunca. E, como a Bélgica está tanto na França quanto em Bruxelas, somos forçados, nós editores, a inda sob o império do direito comum, a declarar inocentemente:
Que a MONOGRAFIA DA IMPRENSA PARISIENSE nos pertence,

Que o registro foi feito em conformidade com as leis,
Que toda publicação desta obra será processada, visto que a reprodução está proibida, como necessário, em nome do autor.

Ouvimos Victor Hugo exprimindo, parafraseando, com a eloqüência que lhe é própria, um belo pensamento que nos aventuramos a traduzir assim:

A França tem duas faces. Eminentemente militar em tempos de guerra, ela é igualmente poderosa em tempos de paz por suas idéias. A Pluma e a Espada, estas são as suas duas armas favoritas. A França é inventiva, porque tem genialidade; é artista, porque a Arte é o complemento das Letras; é comerciante, manufatureira, agrícola, porque uma nação deve produzir como uma lagarta fia seu casulo; mas, nestes três pontos, ela tem rivais que, no momento, ainda lhe são superiores; mesmo depois de seus exércitos terem lutado durante quinze anos contra o mundo, e enquanto suas idéias lhe dão o governo moral deste mesmo mundo.
Os ingleses têm uma encantadora e proverbial expressão para caracterizar a necessidade em que nós nos encontramos de falar sobre nós mesmos: "Parece", eles dizem, "que a trombeta deste cavalheiro está morta". Victor Hugo falava pela França. Não é infeliz que a incúria do governo atual, em relação às Letras, tenha forçado nosso grande poeta a dizer o que só deveria ser pensado pela Europa? Se a pluma da França possui um tal poder, não seria necessário dar a descrição analítica da Ordem Gendelettre (como Gendarme)?
E, nesta ordem, não seria preciso colocar à frente o Gênero Publicista e o Gênero Crítico, que compõem, juntamente com seus Subgêneros e suas variedades, a Imprensa parisiense, esta terrível potência cuja queda é incessantemente retida por culpa do poder?

Axioma
A imprensa será morta como será morto um povo: dando-lhe a liberdade.

É sobretudo para esta parte deste Tratado do Bímano em sociedade que nós trouxemos a atenção a qual a Zoologia deu às Monografias do Anelídeos, dos Moluscos, dos Entozoários, e que não podia faltar a Espécies Morais tão curiosas. Nós esperamos que as nações estrangeiras venha a ter algum prazer lendo esta porção de História Natural Social à qual uma ilustração vigorosa dá todo o mérito da iconografia.

CARÁTERES GERAIS - O principal caráter destes dois gêneros é não ter nenhum caráter. Os indivíduos que pertencem ao Subgênero do Publicista de carteira (faça como o governo, olhe mais para baixo), que deveriam ter um caráter qualquer, não têm como oferecer a menor aparência; por que então eles não se enquadrariam essencialmente dentro das condições da política francesa, que escapa a todas as definições, e se entrega à filosofia através de contínuas ausências de sentido. Pode-se perceber, porém, alguns indivíduos que, escrevendo sempre a mesma coisa, repetindo o mesmo artigo - por impossibilidade, aliás, de encontrar um outro -, passam por ter caráter; mas são evidentemente uns maníacos cuja loucura sem perigo insensibiliza o assinante-confiante e alegra o assinante-espírito forte. Se os estrangeros se admiram com este defeito, eles devem ter em conta o espírito nacional que exige uma mobilidade tão grande entre os Homens quanto nas Instituições. O público, na França, acha aborrecidas as pessoas com convicções, e acusa as pessoas com mobilidade de não terem caráter. Este dilema, perpetuamente dirigido contra os indivíduos destes dois Gêneros, torna sua posição extremamente crítica. Quando um escritor espirituoso vai, como uma mosca lasciva, de jornal em jornal, que seja alternadamente monarquista, ministerial, liberal, reministerial, e continue a escrever secretamente em todos os jornais, vai-se dizer dele: 'É um homem sem consistência!' Quando um escritor se faz de marido enganado liberal, marido enganado humanitário, marido enganado de oposição, e não varia seu tema, diz-se dele: 'É um homem tedioso.' Assim, o indivíduo mais espiritual é o Nadólogo e o Escritor monobíblia. Estas duas Variedades evitam os perigos do dilema tornando-se ilegíveis. (Olhe como o governo, cada vez mais para baixo.)
Em relação ao aspecto físico, estes indivíduos em geral não têm beleza, apesar de encomendarem para si próprios imagens de bustos notáveis com a ajuda da litografia, gesso, estatuetas e falsos topetes. Quase todos são destituídos desta polidez que os escritores do século XVIII deviam a seu comércio com os salões onde eram festejados. Eles vivem isolados, separados por suas pretensões, e se conhecem pouco entre si, tanto eles têm medo de ter más consciências. Esta vida solitária não impede todos os indivíduos de exercerem sua inveja em relação à posição, ao talento, à fortuna e às vantagens pessoais de seus confrades, de forma que sua feroz mania de igualdade vem precisamente do fato de que eles reconhecem entre eles as mais contundentes desigualdades." (continua...)

* Na imagem: O nascimento de Vênus - Sandro Botticelli.

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