domingo, maio 18, 2008

Os Jornalistas - Primeiro Gênero - Segunda Variedade




O Tenor

Chamamos Premier-Paris o longo discurso que deve estar sempre sobre uma folha pública, todos os dias, e sem o qual parece que, por falta deste alimento, a inteligência dos assinantes emagreceria. O redator dos Premiers-Paris é, portanto, o Tenor do jornal, porque ele é ou se acredita o de peito que faz a assinatura, como o tenor que traz a receita para o teatro. Nesta função, é difícil que um homem não deforme sua genialidade e se torne medíocre. Aqui está o porquê:
Salvo pelas nuanças, só há dois moldes para os Premiers-Paris: o molde da oposição, o molde ministerial. Há também um terceiro molde; mas nós veremos em breve como e por que este molde é empregado raramente. Faça o que fizer o governo, o redator dos Primiers-Paris da Oposição deve encontrar nele o que censurar, culpar, criticar, aconselhar. Faça o que fizer o governo, espera-se do redator dos Premiers-Paris ministeriais que ele o defenda. Um é uma constante negação, o outro uma constante afirmação, colocando à parte a cor que faz a nuança da prosa de cada partido, pois há terceiros partidos em cada partido. Ao final de um certo número de anos, de uma parte e de outra, os escritores têm calos no gênio, fabricaram para si próprios uma maneira de ver, e vivem sobre um certo número de frases.
Se o homem engrenado nesta máquina é, por acaso, um homem superior, ele se desembaraça dela; se permanecer nela, torna-se medíocre. Mas há todas as razões para acreditar que os redatores dos Premiers-Paris são medíocres por nascença, e se tornam ainda mais medíocres através deste trabalho fastidioso, estéril, no qual se ocupam bem menos em exprimir seus pensamentos do que em formular aqueles da maioria dos seus assinantes. Vocês sabem qual classe de gente é a maioria em uma massa?
Estes fabricantes de longos discursos se esforçam em ser apenas a tela branca sobre a qual são pintadas, como nas sombras chinesas, as idéias de seu assinantes. O Tenor de cada jornal joga, portanto, um jogo agradável com seu assinante. A cada evento, o assinante se forma uma opinião, e adormece dizendo a si mesmo: "Verei amanhã o que dirá a respeito disso meu jornal." O Primier-Paris, que só existe pela divinização perpétua dos pensamentos do assinante, o surpreende no dia seguinte agradavelmente panificando-lhe o seu pensamento. O assinante recompensa este jogo de Viva o amor, a carta cumpriu sua missão! com doze ou quinze francos a cada três meses.
O estilo seria uma infelicidade nestas diluições onde devemos afogar os eventos para amealhar o público, que observa então aonde isto vai. Em primeiro lugar, que homem faria questão de produzir por ano seiscentas colunas dignas de Jean-Jacques [Rousseau], de Bossuet ou de Montesquieu, cheias de senso, razão, vigor e coloridas?... Assim, nos Premiers-Paris, há uma fraseologia de convenção, como há discursos de convenção na tribuna. Não se ousa dizer as coisas como elas são. Nem a Oposição nem o Ministério escrevem a História. A Imprensa não é tão livre quanto o público imagina, na França e no estrangeiro, segundo esta expressão liberdade da imprensa. Há fatos impossíveis de serem contados, e cautelas necessárias com os fatos de que falamos. Assim o jesuitismo tão estigmatizado com Pascal era menos hipócrita que o da Imprensa. Para sua vergonha, a Imprensa só é livre face aos fracos e às pessoas isoladas.
O que mata o escritor dos Primiers-Paris é o fato de estar incógnito: o Premier-Paris não é assinado. Este Tenor da Imprensa é, na realidade, o condottiere da Idade Média. Já se viu M. Thiers aliciando e dirigindo os entusiasmos de cinco Premiers-Paris no tempo da Coalizão.
O Premier-Paris também tem um comportamento orgulhoso; ele acredita estar falando à Europa e acredita que a Europa o escuta. Quando morre um destes tenores, ninguém sabe o nome do ilustre escritor que todos os jornais choram.
O gênio, e se você só quiser se ater à genialidade, a genialidade consiste em ver, em política, todas as faces de um fato, o porte de um evento, em prever o evento em sua causa, e em concluir beneficiando uma política nacional; ora, um escritor que jogasse seus Premiers-Paris neste terceiro molde faria fugir todos os assinantes do jornal. Quanto mais o jornal se tornasse Pitt ou Montesquieu, menos sucesso teria (veja o Nadálogo [outra variedade]). Ele só seria compreendido por aqueles para quem os eventos são suficientes, e que não têm necessidade de jornais. O jornal que tem mais assinantes é, portanto, aquele que se assemelha melhor à massa: conclua!
Sendo ele próprio pouca coisa, o escritor dos Premiers-Paris tem muita arrogância: ele se acha necessário! E ele o é... à empresa de papel enegrecido que leva tal ou tal soma aos sócios. Sim, não é Premier-Paris quem quer! É preciso falar o jesuíta da folha pública. Assim, o júri condena uma frase simples e clara, mas absolve as circunlocuções. Faça andar suas idéias sobre muletas, o júri o achará constitucional; ande direito, você se tornará faccioso.
Diga: "A dignidade dos pares acaba de se desonrar!" Você paga dez mil francos de multa e manda o gerente do jornal a dois meses de prisão.
Mas, depois de uma crítica violenta dos atos da Câmara, acrescente:

Na verdade, sós somos amigos demais das instituições com as quais o país cercou a dinastia nova, para não dizer que continuando a ir nesta via, caminha-se para a desconsideração, a desonra etc. etc.

O Ministério Público, a Câmara, o Trono não têm uma palavra sequer a dizer.
Há em Paris artistas brincalhões que, dado tal fato, podem escrever adiantadamente os principais Premiers-Paris. Assim, durante uma calmaria no Oceano político, esta terrível notícia chega de Augsburg (Augsburg é para o jornalismo o que Nuremberg é para as crianças, uma fábrica de brinquedos):

Durante a passagem de Lorde Willgoud por Galucho (Brasil), diz-se que a delegação inglesa ofereceu um jantar ao qual esteve presente todo o corpo diplomático, menos o cônsul da França. Este esquecimento, nas circunstâncias atuais, é significativo.

Logo a República se lança primeiro que todos na brecha com o seguinte Premier-Paris:

Se o espírito de adulação e corrupção não fosse o único móvel do Sistema que governa, se seu único objetivo não fosse de aviltar constantemente a França aos olhos do estrangeiro, nós poderíamos verdadeiramente nos espantar com uma tal segurança na covardia, com um tal descaramento na vergonha, com uma tal coragem na covardia! Um fato que fere profundamente o sentimento nacional nos foi revelado ontem por La Gazette d'Augsburg; e, repetindo-o esta manhã, nenhuma folha do poder parece suspeitar a estrepitosa indignação que ele já criou no país. Durante a passagem de Lorde Willgoud por Galucho (Brasil), um banquete foi oferecido a este almirante pela delegação inglesa desta residência, e, de todos os cônsules estrangeiros, o cônsul da França foi o único não convidado para esta refeição, inteiramente diplomática. "Ele estava doente", acrescenta ironicamente La Gazzete. Ora! Nós sabemos até demais, os tristes homens que dirigem ou representam a França estão sempre moribundos quando se trata de manter a honra do país do qual eles esbanjam os destinos. Inteiramente dedicado a suas miseráveis intrigas de pessoas, a suas vergonhosas tramóias de consciências em leilão, a suas escandalosas complacências pelo partido da corte, o ministério deixará se apagar mais este insulto sob um próximo insulto, e o país será constrangido mais esta vez a se submeter em silêncio a esta afronta insolente de seu mui caro aliado, a ávida Inglaterra.
Em caso de humilhação, o laissez-faire e o laissez-passer são portanto decididamente a máxima favorita do poder. Em virtude do axioma muito conhecido a respeito da mais bela moça do mundo, nós não pedimos a este poder nem talentos, nem dignidade, nem patriotismo; mas, no seu próprio interesse, nós devemos adverti-lo de que ele gasta nossa honra em pura perda, se ele espera poder recosturar os frangalhos rasgados da Santa Aliança à custa de baixezas e de covardias.

Depois, no dia seguinte, esta energia se estende sob um laminador que tem o peso de quarenta mil assinantes que lêem:

É com dor que todas as opiniões sinceramente dedicadas a nossas instituições vêem o governo se isolar a cada dia mais e mais do país, e desprezar todos os princípios de alta probidade política que serviram de fundação à nossa constituição, e que são os únicos que poderiam lhe assegurar no futuro as condições de moralização necessárias a toda organização social cujas bases devem sempre estar funcamentadas na lealdade governamental, sobretudo em uma nação que, como a França, está sempre na vanguarda da civilização, e pesa com toda a sua influente iniciativa no prato da balança liberal dos destinos do mundo, para fazer contrapeso às monarquias absolutas, cujas tradições e organização indispensáveis a sua conservação estão em oposição fatal, mas natural, ao seu espírito de liberdade: nesta luta entre as idéias retrógradas do absolutismo e as simpatias generosas que a França sempre suscitou, um ministério à altura de sua nobre missão, e que, por conseqüência, não desprezaria a dignidade nacional, nem transformaria em mercadoria as nossas humilhações, e falaria alto e com firmeza no exterior, em todas as circunstâncias; pois, quando se tem a honra de representar a França, não se tem o direito de esconder sua falta de patriotismo sob um falso semblante de desprezo, declarando que tal insulto não é digno de nossa cólera, como dirá hoje o poder a propósito da grave questão Willgoud, que, esperamos, reunirá no partido que representamos todos os homens moderados que colocam em primeiro lugar a honra nacional, a retidão política, a moralidade governamental, todos os sentimentos generosos enfim, de que está tão completamente desprovido o triste sistema que nos governa, e que, desde agora, sem apoio na opinião pública, cairá por si próprio sob o peso esmagador de suas próprias iniqüidades.

Esta frase única, combinada de três formas, é suficiente todas as manhãs para que a maioria dos franceses formem uma opinião sobre todos os acontecimentos possíveis. O Tenor a quem ela é devida a escreve há cinco anos com uma coragem verdadeiramente parlamentar. Depois do triunfo de julho, um velho Tenor esquerdista confessou que só tinha escrito um mesmo artigo durante doze anos. Este homem franco está morto! Sua confissão, tornada célebre, faz sorrir e deveria fazer tremer. Para pôr abaixo o mais belo edifício, um pedreiro não dá o mesmo golpe de picareta?
O maior dos jornais, como formato, responde, então à maneira de um personagem de écloga virgiliana:

Sempre admirando o espírito, o grande senso, e sobretudo o bom gosto dos órgãos da Oposição, confessamos que compreendemos dificilmente a pena à qual eles se entregam todos os dias para descobrir um novo insulto feito à França. Para um partido que se declarou modestamente o único guardião da dignidade nacional, esta preocupação talvez nào tenha lógica. Ainda assim, como nós não temos a honra de sermos admitidos, assim como Le National, na intimidade do futuro, só antecipamos esta opinião com uma extrema timidez.
O que somos nós, com efeito, para ousarmos julgar a política radical, nós que só defendemos a política do bom senso? Em breve fará doze anos, é verdade, que o partido conservador restabeleceu a ordem e manteve a paz.
(Preço: cinco mil francos por mês.) Em breve doze anos que, graças à nossa prudência corajosa, à nossa sabedoria desinteressada, o governo se manteve contra todas as anarquias; mas esta tarefa é bem mesquinha junto a sublimes pretensões de uma opinião que restabelece todas as manhãs os direitos mal conhecidos da humanidade e que põe em ordem ao mesmo tempo os destinos do mundo.
A aliança da monarquia e da liberdade sempre foi a promessa da França. Esta aliança, nós a estabelecemos e a defenderemos constantemente com os homens honestos e os espíritos sensato, contra as más paixões e as idéias subversivas que minam sem trégua a ordem social.
(Preço: cinco mil francos por mês)
No entanto, nós deixaríamos freqüentemente se agitar, na sua impotência, esta velha Oposição que se perturba com qualquer calma, que se irrita com toda superioridade, e que se aflige com toda felicidade pública, se ela não deturpasse diariamente os fatos mais simples para criar para si própria armas contra o poder.
Assim, por exemplo, a Oposição há dois dias se indigna a propósito de um banquete diplomático para o qual um de nossos cônsules não teria sido convidado. Para nós que conhecemos a alta reputação de cortesia de Lorde Willgoud, e o nobre caráter de nosso representante Galucho, declaramos previamente que é impossível que as coisas tenham se passado como afirma a Oposição.
Frente a esta simples notícia e sem esperar detalhes mais amplos,
Le National arma, entretanto, o Norte contra o Sul, o Oriente contra o Ocidente, todos os pontos cardeais são inflamados por ele, e tudo isto por causa de um convite, perdido, omitido ou recusado. Na verdade, a Oposição é bastante boa em tomar tão vivamente para si os interesses de um país que a escuta tão pouco.

Vendo seu quase governo engajado, Le Messager responde então com linhas cruéis a respeito do dente de ouro de Augsburg:

Há algum tempo, os jornais se preocupam com um fato que teria acontecido, diz-se, a propósito de um jantar oferecido pela legação inglesa de Galucho ao almirante Willgoud, e de qual nosso cônsul teria sido excluído. Em primeiro lugar, Galucho é um forte desmantelado ao redor do qual só há três cabanas de pescadores, situado a oitocentos quilômetros de Pernambuco. Em segundo lugar, não existe nenhum almirante de nome Willgoud nos registros do almirantado inglês.

Aqui está como procede La Gazzete de France, saindo na mesma hora que Le Messager:


Quando pensamos que os jornais dinásticos estão procurando saber se um de nossos cônsules jantou ou não jantou na residência de um inglês com ou sem caráter político, para saber se o governo de Luís Felipe é ou não honrado, quem não partilhará nossa opinião sobre a necessidade de tentarmos um modo satisfatório de representação? Se o país tivesse sido convocado a fazer um governo, nós estaríamos nesta situação? Nós estaríamos nesta situação em 1825? Respondam, atores desta comédia de quinze anos!


Ainda a este respeito, La Presse, na manhã seguinte, lança esta agradável e breve notícia:

Na impossibilidade em que se encontra de criar qualquer coisa, a Oposição acaba de criar um almirante inglês e uma cidade. Quem desconsidera a Imprensa, entre aqueles que se deixam apegar aos anúncios espalhafatosos alemães e que espalham sua bile no vazio, ou entre aqueles que se ocupam honestamente dos verdadeiros interesses do país?

La Presse
faz questão de fazer os assuntos do país.

Fará em breve vinte e sete anos que o Jornal político, na França, presta ao Gênio humano o serviço de esclarecer-lhe assim o respeito de todas as questões. Eis a carga do Premier-Paris. Eis esta liberdade que foi paga com torrentes de sangue e tanta prosperidade perdida. Releia os velhos jornais, você verá sempre o mesmo almirante Willgoud sob outras formas.
Se os jornais não existisse, qual seria a profissão dos tenores políticos? A resposta é a mais cruel sátira da existência atual deles.
Os tenores são divididos em duas nuanças bem distintas: o Tenor da Oposição, o Tenor ministerial. Os escritores ministeriais se vendem como bons moços. Geralmente espirituosos, divertidos e alegres, eles são restativos; se confessam corrompidos como os diplomatas, e em princípios são otimistas. Os outros, afetados e pretensiosos, colocam tantas virtudes para o exterior, que não deve lhes restar mais nenhuma no interior; eles se dizem puritanos e atormentam muito bem o poder em favor de seus parentes. (A casa Barrot recebe centro e trinta mil francos de vencimentos!) Quando um Tenor ministerial descobre que um homem da Imprensa cometeu alguma enormidade, ele pergunta: "Ele pelo menos fez seu negócio?" E perdoa. Enquanto o Tenor da Oposição joga fogo e chamas, ele acha o meio de fazer seu próprio elogio dizendo: "Nós temos isto no nosso partido, o fato de sermos honestos!" O que quer dizer: Ainda não há nada para partilhar."

* Na imagem Otávio Frias Filho, diretor de redação do Jornal Folha de São Paulo.

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