quarta-feira, julho 16, 2008

O burro, o boi, o mercador e sua esposa











(continuação do livro das mil e uma noites)
"Saiba que certo mercador próspero tinha muito dinheiro, homens, animais de carga, e camelos; também tinha esposa e filhos pequenos e crescidos. Vivia no interior, inteiramente dedicado à lavoura, e conhecia a linguagem dos quadrúpedes e demais animais; no entanto, se ele revelasse tal segredo a alguém, morreria. Ele sabia, portanto, a linguagem de todas as espécies de animais, mas não dizia nada a ninguém por medo de morrer. Em sua fazenda viviam um boi e um burro, e ambos ficavam próximos um do outro, amarrados ao pesebre. Certo dia, o mercador sentou-se, com sua esposa ao lado e os filhos pequenos brincando diante de si, e olhou para o boi e o burro. Ouviu o boi dizendo ao burro: "Muitas congratulações para você, mano esperto, pelo conforto e pelos serviços de escovação e limpeza que recebe. Você tem quem cuide de si; só o alimentam com cevada escolhida e água fresca e limpa. Quanto a mim, pegam-me no meio da noite para lavrar e colocam no meu cangote uns utensílios chamados canga e arado; trabalho o dia inteiro, escavando a terra e sendo obrigado a tarefas insuportáveis; sofro com as surras do lavrador e com o o relho; meus flancos se lanham e meu cangote se esfola; fazem-me trabalhar de noite a noite, e depois me levam ao paiol, onde me dão fava suja de barro e palha com talo; durmo no meio da merda e do mijo a noite inteira. Agora, você não, você está sempre sendo escovado, lavado e limpado; seu pesebre é limpo e cheio de boa palha; está sempre descansado, e só raramente, quando ocorre ao nosso dono, o mercador, alguma necessidade, ele monta em você, mas retorna rapidamente. Você está descansado, e eu, cansado; você está dormindo, e eu, acordado". Quando o boi encerrou o discurso, o burro voltou-se para ele e disse: "Seu simplório, não mente quem te trata como bobo, pois você, bobalhão, não tem nem artimanha nem esperteza nem maldade. Fica aí exibindo a sua gordura, se esforçando e se matando pelo conforto dos outros? Você por acaso não ouviu o provérbio que diz ´quem perde sucesso, seu caminho entra em recesso´? Você sai logo de manhãzinha para o campo, o maior sofrimento, lavrando e paanhando, e depois o lavrador traz você e amarra no pesebre, enquanto você fica aí se batendo, dando chifrada, dando coice, dando mugido, mal agüentando esperar até que joguem as favas na sua frente para você comer? Não, nada disso, você tem mais é que fazer o seguinte: quando lhe troxerem a fava, não coma nada; dê só uma cheiradinha nela, se afaste e nem prove; limite-se a comer palha e feno. Se agir assim, isso será melhor e mais adequado para você, e aí então vai ver o conforto que desfrutará´.

Disse o autor: ao ouvir as palavras do burro, o boi percebeu que este lhe dava excelentes conselhos; agradeceu-lhe em sua língua, fez-lhe os melhores votos, desejou-lhe as melhores recompensas, certifiou-se de que seus conselhos erambons e lhe disse: "Que você fique a salvo de todo dano, mano esperto!´.

[Prosseguiu o vizir:] Isso tudo ocorreu, minha filha, diante dos olhos do mercador, que sabia o que eles estavam dizendo. Quando foi no dia seguinte, olavarador foi até a casa do mercador, recolheu o boi, colocou-lhe o arado e o pôs a trabalhar. O boi, contudo, realizou mal o seu trabalho de aragem; o lavrador espancou-o e o boi, fingindo - pois ele aceitara as recomendações do burro -, atirou-se ao chão; o lavrador tornou a bater-lhe, mas o boi pôs-se a levantar e cair seguidamente até que anoiteceu. Então o lavrador conduziu-o até o paiol, amarrando-o ao pesebre. O boi não mugiu nem deu coices, e se afastou do pesebre. Intrigado com aquela história, o lavrador trouxe-lhe favas e forragem, mas o boi, após cheirá-las, deu uns passos para trás e foi deitar-se longe dali, pondo-se a mordiscar um pouquinho de palha e feno espalhados ali pelo cháo até que amanheceu, quando então o lavrador voltou e verificou que o pesebre continuava cheio de feno e palha, cujas quantias não haviam diminuído nem se modificado, e que o boi estava deitado, a barriga estufada, a respiração presa e as pernas erguidas; ficou triste por ele e pensou: 'Por Deus que ele estava enfraquecido, e é por isso que não conseguia trabalhar´. Em seguida, dirigiu-se ao mercador e disse: 'Chefe, esta noite o boi não comeu a ração, nem sequer provou nada'. Sabedor do caso, o mercador disse ao lavrador: 'Vá até aqule burro malandro e bote-lhe o arado ao pescoço; faça-o trabalhar bastante a fim de que ele compensa a ausência do boi'. Então o lavrador foi até o burro, pendurou-lhe o arado ao pescoço, foi até o campo e chicoteou e forçou o burro a fim de que ele cumprisse as tarefas do boi. Tantas foram as chicotadas que seus flancos se dilaceraram e seu pescoço se esfolou. Ao anoitecer, conduciu-o ao paiol. De orelhas murchas, o burro estava que mal conseguia arrastar as patas. Quanto ao boi, naquele dia sua história fora outra: passara o tempo todo dormindo, sossegado e ruminando; comera toda a sua ração, matara a sede, esperara, descansara e durante o dia inteiro rogara pelo burro e lhe louvara o bom parecer. Quando anoiteceu e o burro chegou, o boi foi recepcioná-lo pressuroso dizendo: 'Que você tenha uma excelente noite, mano esperto! Por Deus que você me fez um favor que, de tão grando, não tenho como descrever. Que você continue correto e cortês, e que Deus o recompense por mim, mano esperto!'. O burro estava tão irritado com o boi que não lhe deu resposta, e pensou: 'Isso tudo me aconteceu por causa dos meus péssimos cálculos. 'Eu estava tranqüilo e sossegado mas a minha curiosidade me deixou ferrado'. Agora, se eu não arranjar algum estratagema para fazer o boi retornar ao que fazia antes, estarei destruído'. E dirigiu-se ao seu pesebre, enquanto o boi ruminava e lhe fazia bons votos.

[Prosseguiu o vizir:] 'Também você, minha filha, poderá ser destruída em virtude dos seus péssimos cálculos; por isso, acalme-se, fique quieta e não exponha sua vida à desruição. Estou sendo seu bom conselheiro, e ajo movido por meu afeto por você'. Ela disse: 'Papai, é absolutamente imperioso que eu vá até esse sultão e que você me dê em casamento a ele'. Disse o vizir: 'Não faça isso'. Ela respondeu: 'É absolutamente imperioso fazê-lo'. O vizir disse: 'Caso não se aquiete, vou fazer com você o mesmo que o mercador proprietário da fazenda fez com a esposa'. Ela perguntou: 'E o que ele fez com a esposa, papai?. O vizi respondeu:"

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