domingo, julho 06, 2008

O gênio e a jovem sequestrada


(Continuação do Livro das mil e uma noites)


"Disse o copista: ato contínuo, ambos desceram pela porta secreta do palácio e, saindo por outro caminho, puseram-se em viagem. E viajando continuaram até o anoitecer, quando então dormiram abraçados a suas aflições e dores. Mal amanheceu retomaram a caminhada, logo chegando a um prado repleto de plantas e árvores na orla do mar salgado. Ali começaram a discutir sobre suas respectivas desditas e o que lhes sucedera. Enquanto estavam nisso, eis que um grito, um brado violentíssimo, saiu do meio do mar. Tremendo de medo, eles supuseram que os céus se fechavam sobre a terra. Então o mar se fendeu, dele saindo uma coluna negra que não parava de crescer até que alcançou o topo do céu. Tamanho foi o medo dos dois irmãos que eles fugiram e subiram numa árvore gigante na qual se instalaram, ocultando-se entre as suas folhagens. Dali, espicharam o olhar para a coluna negra que, flanando pela agua, fazia o mar fender-se e avançava em direção àquele prado verdejante. Assim que botou os pés na terra, ambos puderam vê-lo bem: tratava-se de um ifrit [gênio] preto, que carregava à cabeça um grande baú de vidro com quatro cadeados de aço. Ao sair do mar, o ifrit caminhou pelo prado e foi instalar-se justamente debaixo da árvore em que os dois reis estavam escondidos. Depois de se sentar debaixo da árvore, ele depositou o baú no solo, sacou quatro chaves com as quais abrio os cadeados e dali retirou uma mulher de compleição perfeita, bela jovem de membros gentis, um doce sorriso no rosto de lua cheia. Retirou-a do baú, colocou-a debaixo da árvore, contemplou-a e disse: ´Ó senhora de todas as mulheres livres, a quem seqüestrei na noite de seu casamento, eu gostaria agora de dormir um pouco´. Ato contínuo, o ifrit depositou a cabeça no colo da jovem e estendeu as pernas, que chegram até o mar. E, mergulhando no sono, pôs-se a roncar. A jovem ergueu a cabeça para a árvore e, voltando casualmente o olhar, avistou os reis Sahriyar e Sahzaman. Então ergueu a cabeça do ifrit do seu colo, depositou-a no chão, levantou-se, foi até debaixo da árvore e sinalizou-lhes com as mãos: ´Desçam devagarzinho até mim´. Percebendo que haviam sido vistos, eles ficaram temerosos e suplicaram, humildes, em nome daquele que erguera os céus, que ela os poupasse de descer. A jovem disse: ´É absolutamente imperioso que vocês desçam até aqui´. Eles lhe disseram por meio de sinais: ´Mas isso aí que está deitado é inimigo do gênero humano. Por Deus, deixe-nos em paz´. Ela disse: ´É absolutamente imperioso que vocês desçam. Se acaso não o fizerem, eu acordarei o ifrit e lhe pedirei que os mate´, e continuou fazendo-lhes sinais e insistindo até que eles desceram lentamente da árvore, colocando-se afinal diante dela, que se deitou de costas, ergueu as pernas e disse: ´Vamos, comecem a copular e me satisfaçam, senão eu vou acordar o ifrit para quele mate vocês´. Eles disseram: `Pelo amor de deus, minha senhora, não faça assim. Nós agora estamos com muito medo desse ifrit, estamos apavorados. Poupe-nos disso´. A jovem respondeu: ´É absolutamente imperioso´, insistiu e jurou: ´Por Deus que ergueu os céus, se vocês não fizerem o que estou mandando, eu acordarei meu marido ifrit e mandarei que mate vocês e os afunde nesse mar´. E tanto insistiu que eles não tiveram como divergir: ambos copularam com ela, primeiro o mais velho, e em seguida o mais jovem. Quando terminaram e saíram de cima dela, a jovem disse: ´Dêem-me seus anéis´, e puxou, do meio de suas roupas, um pequeno saco. Abrindo-o, sacudiu seu conteúdo no chão, e dele saíram noventa e oito anéis de diferentes cores e modelos. Ela perguntou: ´Por acaso vocês sabem o que são estes anéis?´. Responderam: ´Não´. Ela disse: ´Todos os donos desses anéis me possuíram, e de cada um eu tomei o anel. E como vocês também me possuíram, dêem-me seus anéis para que eu os junte a estes outros e complete cem anéis; assim, desse ifrit nojento e chifrudo, que me prendeu nesse baú, me trancou com quatro cadeados e me fez morar no meio desse mar agitado e de ondas revoltas, pretendendo que eu fosse, ao mesmo tempo, uma mulher liberta e vigiada. Mas ele não sabe que o destino não pode ser evitado nem nada pode impedi-lo, nem que, quando a mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la´. Ao ouvir as palavras da jovem, os reis Sahriyar e Sahzaman ficaram sumamente assombrados e, curvados de espanto disseram: ´Deus, ó Deus, não existe poderio nem força senão em Deus altíssimo e grandioso! De fato, vossas artimanhas são terríveis´. Retiraram os anéis e os entregaram á jovem, que os recolheu e guardou no saco, indo em seguida sentar-se junto ao ifrit, cuja cabeça ergueu e recolocou no colo conforme estava antes. Depois, fez-lhe sinais: ´Tomem seu caminho senão eu acordo o ifrit´.

Disse o autor: então eles fizeram meia-volta e se puseram em marcha. Voltando-se para o irmão, Sahriyar disse: ´Ó meu irmão Sahzaman, veja sõ essa desgraça: por Deus, é muito pior do que a nossa. Esse aí é um gênio que seqüestrou a jovem na noite de seu noivado, e a trancafiou num baú de vidro com quatro cadeados, e a fez morar no meio do mar alegando que assim a preservaria do juízo e decreto divinos. Mas você viu que ela já tinha sido possuída por noventa e oito homens, e que eu e você completamos os cem. Vamos retornar, mano, para nossos reinos e cidades. Não voltaremos a tomar em casamento mulher alguma. Aliás, de minha parte, eu vou lhe mostrar o que farei´.

Disse o autor: então eles apressaram o passo no caminho. E não deixaram de marchar mesmo durante a noite, chegando, na manhã do terceiro dia, até onde estavm acampadas as tropas. Adentraram o pavilhão e se sentaram no trono. Secretários, delegados, nobres e vizires foram ter com o rei Sahriyar, que estabeleceu proibições, distribuiu ordens, fez concessões, deu presentes e dádivas. Depois, determinou que se entrasse na cidade e todos entraram. Ele subiu ao palácio e deu a seu vizir-mor - pai das já mencionadas jovens Dinarzad e Sahrazad - a seguinte ordem: ´Pegue a minha mulher e mate-a´, e, entrando no aposentdo dela, amarrou-a e entregou ao vizir, que saiu levando-a consigo e a matou. Depois, o rei Sahriar desembainhou a espada e, entrando nos aposentos de seu palácio, matou todas as criadas, trocando-as por outras. E tomou a resolução de não se manter casado senão uma única noite: ao amanhecer, mataria a mulher a fim de manter-se a salvo de sua perversidade e perfídia; disse: ´Não existe sobre a face da Terra uma única mulher liberta´. E, equipando o irmão Sahzaman, enviou-o de volta para sua terra carregando presentes, jóias, dinheiro e outras coisas. Sahzaman despediu-se e tomou o rumo de seu país.

Disse o autor: o rei Sahriyar instalou-se no trono e ordenou a seu vizir - o pai das duas jovens - que lhe providenciasse casamento com alguma filha de nobres, e o vizir assim o fez. Sahriyar possuiu-a e nela satisfez seu apetite. Quando raiou a manhã, ordenou ao vizir que a matasse. Depois, naqula própria noite, casou-se com outra moça, filha de um de seus chefes militares. Possuiu-a e, ao amanhecer, ordenou ao vizir que a matasse, e este, não podendo desobedecer, matou-a. Depois, na terceira noite, casou-se com a filha de um dos mercadores da cidade. Dormiu com ela até o amanhecer e depois ordenou ao vizir que a matasse, e ele a matou.

Disse o narrador: e o rei Sahriyar continuou a se casar a cada noite com uma jovem filha de mercadores ou de gente do vulgo - com ela ficando uma só noite e em seguida mandando matá-la ao amanhecer - até que as jovens escassearam, as mães choraram, as mulheres se irritaram e os pais e as mães começaram a rogar pragas contra o rei, queixando-se ao criador dos céus e implorando ajuda àquele que ouve as vozes e atende as preces.

Disse o copista: o vizir encarregado de matar as moças tinha uma filha chamada Shrazad, mais velha, e outra chamada Dinarzad, mais nova. Sahrazad, mais velha, tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicinaç decorara poesias e consultara as crônicas históricasç conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido.

Disse o autor: certo dia, Sahrazad disse ao pai: ´Eu vou lhe revelar, papai, o que me anda oculto pela mente´. Ele pergunto: ´E o que é?´. Ela respondeu: ´Eu gostaria que você me casasse com o rei Sahriyar. Ou me converto em um motivo para a salvação das pessoas ou morro e me acabo, tornando-me igual a quem morreu e acabou´. Ao ouvir as palavras da filha, o vizir se encolerizou e disse: ´Sua desajuizada! Será que você não sabe que o rei Sahriyar jurou que não passaria com nenhuma moça senão uma só noite, matando-a ao amanhecer? Se eu consentir nisso, ele vai passar apenas uma noite com você, e logo que amanhecer ele vai me ordenar que a mante, e eu terei de matá-la, pois não posso discordar dele´. Ela disse: ´É absolutamente imperioso, papai, que você me dê em casamento a eleç deixe que ele me mate´. Disse o vizir: ´E o que está levando você a colocar sua vida assim em risco?´. Ela disse: ´É absolutamente imperioso, papai, que você me dê em casamento a ele: uma só palavra e uma ação resoluta´. Então o vizir se encolerizou e disse: ´Filhinha. Quem não sabe lidar com as coisas incide no que é vedado. Quem não mede as conseqüências não tem o destino como amigo. E, como se diz num provérbio corrente, Eu estava tranqüilo e sossegado mas a minha curiosidade me deixou ferrado. Eu temo que lhe suceda o mesmo que sucedeu ao burro e ao boi da parte do lavrador´. Ela perguntou: ´E o que sucedeu, papai, ao burro e ao boi da parte do lavrador?´. Ele disse: "

6 comentários:

kid98 disse...

E o que aconteceu ao burro e ao boi?

Adriano De Bortoli disse...

Vou contar: "com muito gosto, honra e orgulho"...

kid98 disse...

???????????? Não entendi teu comentário?

Adriano De Bortoli disse...

Vai entender conforme forem se seguindo as noites do livro.

kid98 disse...

Serão mil e uma noites?

Adriano De Bortoli disse...

"É absolutamente imperioso" que você tenha paciência meu/minha caro/a, rs.