quinta-feira, maio 10, 2007

O inquisidor Ratzinger e o Frei Boff (parte II)


Ricardo Kotscho - Qual é o papel de dom Eugênio Sales nesse processo? Porque esse Hamer não tinha tanto conhecimento do que acontecia no Brasil pra dizer se havia muito pobre ou pouco pobre. Alguém daqui informava o Vaticano...
Leonardo Boff - Deixa eu dizer antes qual foi o efeito do Hamer em mim: nunca tinha desejado a morte a ninguém, nunca tinha imaginado matar alguém. Voltei para o Brasil totalmente desestruturado em termos psicológicos. Me senti um criminoso, "eu matei" em termos afetivos. Fui me curar passando dois meses na floresta amazônica, me enfiei no Acre, visitando comunidades, para recuperar a minha sanidade psicológica. E tal foi a densidade, que descobri a minha sombra: "Sou capaz de matar, gente!" Mas o grande capítulo foi em 1984, com o livro Igreja, Carisma e Poder. Era uma coletânea de estudos sobre a questão do poder na Igreja e o carisma, e a questão central era se a Igreja como instituição pode se converter ou não. Eu dizia que não, enquanto ela é poder não se converte. Ela é vítima do seu próprio sistema, de sua própria dogmática. Dei o livro para o meu irmão ler, o frei Clodovis, que é teólogo, e ele me disse: "Esse livro vai ser condenado. E, se o Vaticano não reagir, é sinal de que está moribundo, não vale nada. Agora, se tem um mínimo de vida, vai reagir". E reagiu – me convocaram. E a irritação do cardeal Hamer começou porque me convocou para o dia 28 de agosto de 1984, o dia do Encontro Nacional das Prostitutas, e eu era assessor delas. Então escrevi: "Segundo o Evangelho, as prostitutas são primeiras no Reino de Deus, não vou nesse dia, prefiro ir ao encontro delas do que ao Santo Ofício. Só aceito ir se for no dia 7 de setembro, dia nacional da pátria". Ele mandou telegrama dizendo que só poderia ser no dia 28 de agosto e respondi que iria em 7 de setembro. De fato, fui nesse dia, que foi o dia do julgamento. Agora, o que estava por trás era o sentido político da questão – fui vítima de um processo mais amplo que o Vaticano montou contra a CNBB. Eles pegaram a mim, que era assessor da CNBB, que ajudava a fazer os documentos etc., para atingir a CNBB, especialmente a Teologia da Libertação, esse diálogo da Igreja com a sociedade, com a pobreza, e atingir as comunidades eclesiais de base, que este papa não aceita, porque ele acha que é um desvio fundamental na unidade, porque não tem a eucaristia, não tem a hierarquia, que são estruturas fundamentais da Igreja institucional. Como um lobo não come outro lobo, um cardeal não ataca outro cardeal. Pega o teólogo. Quem montou o processo foi dom Eugênio Sales. Criou uma pequena "comissão de doutrina", um pequeno "santo ofício" no Rio de Janeiro. Convocou teólogos de lá, de Porto Alegre, o bispo auxiliar dele – que é um suíço muito reacionário –, montaram o processo, aliás muito mal montado, com frases erradas, argumentos totalmente equivocados, e dom Eugênio o levou para Roma. E Roma disse: "Não fomos nós que avocamos, veio do Brasil". O segundo ponto é que junto comigo foram dom Paulo Evaristo e dom Ivo Lorscheiter, que era presidente da CNBB. Dom Paulo havia sido meu professor e era cardeal. Chegamos os três juntos no Vaticano, o cardeal Ratzinger ficou sumamente irado e disse: "O fato de convocarmos um teólogo aqui já é uma condenação implícita. E esse teólogo, para escândalo dos cristãos, vem acompanhado de Castor e Pólux, as duas divindades pagãs, como anjos da guarda que o acompanham". Eu disse: "Cardeal, com licença, nós somos cristãos, venho acompanhado de São Cosme e São Damião e não de Castor e Pólux" – que sãos os equivalentes pagãos de Cosme e Damião. (risos)
Sérgio de Souza - Você poderia descrever esse tribunal, como ele funciona?
Leonardo Boff - O tribunal é dramático. Me senti literalmente seqüestrado. O convento dos frades fica logo atrás do Vaticano. Eles vieram com um carro, eu estava me despedindo do superior, dos cardeais, dois oficiais do Santo Ofício me agarraram, me empurraram carro adentro, porque haviam dito que eu deveria chegar às 9 horas em ponto. Três para as 9 estavam ali, me agarraram e me empurraram carro adentro...
Marina Amaral - A guarda suíça?
Leonardo Boff - Dois guardas suíços e mais um oficial do Santo Ofício, que vinha junto pra dizer: "É aquele!" Então, o carro foi pela rua e num ponto foi pela contramão, com a sirene aberta. Peguei no chofer e disse: "Olha, posso ser herege, mas é melhor um herege vivo do que um herege morto, e eu quero viver". (risos) O repórter Lucas Mendes, que estava cobrindo o episódio, vinha num carro logo atrás, tanto que, quando o nosso entrou no jardim do Palácio do Vaticano, ele entrou junto e foi preso. Ficou umas cinco horas lá dentro. Ele considera uma das suas glórias, ele, como jornalista, preso pelo Vaticano. Passamos por um enorme portal de ferro, com uns pregos imensos espetados para fora, o carro parou para que aquilo se abrisse e eu disse: "Aqui é que é o local da tortura?" E aquele oficial me deu uma cotovelada, com toda a violência... Aí atravessamos os jardins, chegamos até uma entrada, desci do carro e dois guardas suíços já estavam ali na porta do elevador, abriram, subi dois andares e lá estava o cardeal [Ratzinger] todo paramentado, com outros dois guardas. Assim que abriu a porta do elevador, ele me recebeu. Como é bávaro e eu aprendi bávaro porque estudei em Munique, eu disse no dialeto: "Gricia nargo per cardinala" – pra desfazer aquele ar pesado...
Frei Betto - Em português, o que foi que você disse?
Leonardo Boff - "Salve, senhor cardeal", "Deus te proteja, senhor cardeal", que é uma saudação que o povo faz na rua. Aí ele me pegou pelo braço e me levou...
Sérgio de Souza - Aí você está sozinho?
Leonardo Boff - Sozinho. Me levou até o fundo, onde tem uma saleta, lugar onde eram julgados todos os inquiridos. E lá está a cadeirinha, a mesma em que sentou Galileu Galilei, sentou Giordano Bruno... e fiz uma saudação a ela, o que irritou o cardeal. Tem uma mesinha no meio, a cadeirinha aqui, o inquisidor lá, e o notário aqui ao lado, que vai anotando tudo. E atrás tem um pequeno anfiteatro, porque antigamente eram muitos os inquisidores, e embaixo ficava a sala de torturas, que existe ainda.
Marina Amaral - O processo de inquisição, a maneira como a Igreja se comporta ao inquirir uma pessoa ainda é a mesma, não houve uma atualização?
Leonardo Boff - Fundamentalmente não houve atualização.
Frei Betto - Até piorou, porque atualmente, depois do estabelecimento da infalibilidade do papa, nenhum réu pode ter direito a defesa, porque não se pode partir do princípio de que a autoridade eclesiástica esteja equivocada. Então, não existe direito à defesa, é o único tribunal do mundo onde isso acontece.
Leonardo Boff - É onde a mesma instância acusa, a mesma instância julga, a mesma instância pune.
Marina Amaral - Não pode pedir perdão...
Leonardo Boff - Não, não.
Frei Betto - Não pode se defender; não pode constituir advogado.
Leonardo Boff - Não pode ter advogado, aliás, existe advogado, mas você não conhece. Você tem um advogado chamado advocatus proautore, que você não conhece, que junto aos cardeais faz o advogado do diabo, toma a minha defesa, mas não pode conversar comigo, nem sei quem é.
Sérgio Pinto - Você pode falar ali?
Leonardo Boff - Não. Só responder. E você não tem acesso às atas, não sabe quem são os acusadores. Só conhece algumas perguntas, o cardeal é que tem todo o material, extenso, que é o documentário dele.
Sérgio de Souza - Continuando a história, você senta na cadeirinha...
Leonardo Boff - Antes eu faço aquela homenagem...
(continua amanhã)

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