quinta-feira, maio 08, 2008

Lados opostos

A democracia é o regime das divergências, não do consenso. Ela não apenas sobrevive apesar das divergências: parte da sua força vem precisamente do tratamento prolongado com inumeras, infinitas divergências. Ontem, por exemplo, o senado da República presenciou uma dessas divergências que revitalizam o regime. Durante o depoimento da ministra Dilma Roussef o senador Agripino Maia levantou interessante questão: em entrevista à Folha de São Paulo a ministra admitiu que, durante os interrogatórios a que foi submetida no regime militar, mentiu para seus algozes. Será - concluiu o senador - que não mentiria também agora, perante a comissão? Em sua resposta Roussef foi, digamos, pedagógica.
Nas democracias, aliás, é o legislativo (e não o executivo ou o judiciário) que constitui o templo sagrado das divergências políticas. Cada um fala o que pensa, do modo como quer, se preciso for votamos a questão, a maioria leva e a vida segue, com todos vivos. Bem, ontem, quando Roussef colocou os pés no senado, a intenção absolutamente legítima de parte do congresso era impor-lhe uma contundente derrota política. Ao final de seu depoimento a sensação generalizada era de que ela fora vitoriosa politicamente. Tudo bem para ambas as partes, a vida segue, a disputa continua, todos vivos. Para além disso, no entanto, a intervenção de ambos teve um valor mais elevado: explicitou certas divergências sobre valores de fundo, opções políticas e pessoais e algumas decisões tomadas no calor da história que influenciaram não apenas as partes em disputa mas gerações futuras. Sem esse tipo de mecanismo os antagonismos continuariam existindo, só que escondido por uma grossa camada de retórica vazia sobre valores políticos supostamente consensuais, os "bons costumes" e coisas tais. Graças a embates assim o público pode julgar e não apenas torcer por uma das partes em disputa. Afinal, nas democracias, esta também é uma peculiaridade, os lances finais, decisivos, são tomados pelos milhares de anônimos, na urna.

a intervenção do senador Agripino Maia.
a resposta da ministra Dilma

2 comentários:

gerson sicca disse...

Falou tudo Ladeira!

Cláudio Ladeira disse...

Fala colorado,
boa mesmo foi a tirada do Sérgio Leo: "a oposição deve estar pensando em colocar o Agripino no pau de arara".